Acordo EUA-Irã derruba petróleo, melhora humor global e sustenta previsão de corte de 0,25 p.p. na Selic, aponta ex-BC

Um sinal concreto de paz entre Estados Unidos e Irã desencadeou queda do petróleo, redução dos prêmios de risco e reverteu, em poucos dias, a expectativa majoritária do mercado para a reunião do Copom desta quarta-feira (17). A nova precificação indica corte de 0,25 ponto percentual, levando a taxa Selic a 14,25% ao ano, segundo o ex-diretor do Banco Central Reinaldo Le Grazie, hoje sócio da Panamby Capital.

Fator geopolítico reduz prêmio de risco e altera apostas para o Copom

A assinatura oficial do acordo, programada para sexta-feira (19) em Genebra, provocou ajuste imediato nos mercados. O barril de Brent recuou de US$ 90 para US$ 78, enquanto os rendimentos de Treasuries cederam e o índice DXY do dólar perdeu força. Até a semana passada, as curvas de DI embutiam 70 % de probabilidade de manutenção da Selic em 14,50 %; hoje, a probabilidade de corte de 0,25 p.p. ocupa esse mesmo espaço. Para Le Grazie, o “alívio exógeno súbito” cria “janela tática” que o Banco Central pode aproveitar para calibrar a política monetária sem comprometer o juro real.

Choque do petróleo, gargalos logísticos e expansão fiscal mantêm inflação resistente

Embora o preço da commodity tenha arrefecido, o ex-BC alerta para a defasagem no repasse. Bombardeios a refinarias e interrupções na cadeia logística criaram um backlog de embarques que, segundo suas estimativas, levará pelo menos seis meses para ser normalizado. Em paralelo, estímulos domésticos — Desenrola Brasil, crédito para aplicativos, expansão do Minha Casa, Minha Vida 4 e isenção de IR até R$ 5 mil — ampliaram a demanda agregada. Le Grazie destaca que o impulso fiscal “parafiscal” gerou impacto superior ao choque externo do petróleo, combinando-se para elevar as projeções de inflação apesar dos juros nominais historicamente altos.

Ambiente global permanece restritivo mesmo com trégua no Oriente Médio

No tabuleiro internacional, o Banco Central Europeu surpreendeu ao elevar os juros em 0,25 p.p. mesmo com inflação ancorada dentro da meta, reforçando tom conservador. Nos Estados Unidos, a inflação saltou de 2,9 % para 4,1 %, reacendendo a possibilidade de alta adicional pelo Federal Reserve após as eleições de meio de mandato. Até o Banco do Japão quebrou duas décadas de política ultrafrouxa e levou a taxa‐básica a 1 %. Para o Brasil, esse arco de aperto monetário externo impõe cautela: cortes graduais preservam diferencial de juros e limitam fuga de capitais.

Repercussões sobre renda fixa e bolsa brasileiras

Com Selic acima de 14 %, a renda fixa continua liderando o fluxo doméstico. O Tesouro Prefixado 2029 paga 14,4 %, equivalente a juro real próximo de 10 % se as projeções de IPCA em torno de 4,5 % se confirmarem. Já o Tesouro IPCA+ permanece em torno de 8 %, nível historicamente elevado. Na renda variável, o Ibovespa oscila pouco acima de 170 mil pontos. A valorização sincronizada das bolsas globais tende a oferecer “sustentação marginal” ao índice, mas a ausência de gatilhos microeconômicos domésticos limita rali similar ao do último trimestre de 2025, avalia Le Grazie.

Conclusão Técnica: Caso o Copom confirme o corte de 0,25 p.p., a Selic encerrará 2026 em torno de 14 %, nível considerado adequado para conter pressões inflacionárias persistentes oriundas do choque energético e da política fiscal expansionista. A normalização completa das cadeias de petróleo e a eventual cessação dos estímulos de crédito definirão o ritmo de cortes futuros. Até lá, pequenos ajustes visam preservar juro real estável, evitar desalinhamento com o ciclo internacional e continuar ancorando expectativas de preços.