Uma alpaca fêmea adquirida pela cantora sertaneja Ana Castela chegou na noite de terça-feira (16) à fazenda do influenciador do agronegócio Cesar Rincon, em Araranguá (SC), após percorrer 1,7 mil quilômetros em transporte rodoviário, consolidando um novo foco de criação de camelídeos no Sul do Brasil.
Logística do transporte e chegada ao Sul catarinense
A operação que levou a alpaca, batizada de Odete, de seu ponto de origem até o interior de Santa Catarina exigiu planejamento técnico para garantir o bem-estar animal durante todo o trajeto. Segundo Cesar Rincon, o percurso foi realizado em caminhonete adaptada, equipada com compartimento ventilado, monitoramento por câmeras internas e pausas regulares para alimentação e hidratação.
O embarque ocorreu em uma das unidades da empresa Lhamas Brasil, especializada em camelídeos. Além de atuar na venda, a companhia forneceu certificado sanitário, exame negativo para doenças parasitárias e guia de trânsito animal (GTA) emitida pelo serviço veterinário oficial. Esses documentos foram apresentados nos postos de fiscalização interestadual ao longo da rodovia, procedimento obrigatório para a circulação de espécies exóticas.
A chegada à propriedade avaliada em R$ 5 milhões contou com acompanhamento de veterinários. Nas primeiras 24 horas, Odete passou por quarentena preventiva em recinto isolado, onde foram aferidos parâmetros de temperatura, frequência cardíaca e condição de pelagem. A estratégia segue a recomendação do Ministério da Agricultura e Pecuária para evitar a introdução de patógenos no plantel já existente.
Evolução do mercado de camelídeos no Brasil
O interesse por alpacas, lhamas e vicunhas vem crescendo no país desde 2018, impulsionado por três frentes: turismo rural, produção de fibra têxtil de alto valor agregado e interação com o público em eventos corporativos. Dados da Associação Brasileira de Criadores de Camelídeos indicam alta anual de 15 % no registro de novos animais.
Em Santa Catarina, o movimento é relativamente recente. Até 2020, o estado concentrava menos de 2 % do rebanho brasileiro, ampliando-se para cerca de 6 % em 2023, segundo o levantamento mais recente do Instituto Catarinense de Sanidade Agropecuária. A chegada de Odete intensifica essa tendência, pois a região Sul oferece clima ameno e pastagens de gramíneas frias, consideradas ideais para camelídeos oriundos da Cordilheira dos Andes.
Além dos fatores climáticos, incentivos municipais para diversificação agropecuária, como isenção parcial de Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) e linhas de crédito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), têm estimulado produtores a investir nesse nicho.
Planejamento reprodutivo e sinergia com o agronegócio digital
O influenciador Cesar Rincon já mantém um macho adulto, Jack, adquirido em 2022. Com a introdução de Odete, a expectativa é iniciar um programa de reprodução assistida para obtenção de filhotes dentro de 13 a 15 meses, intervalo médio de gestação da espécie. Rincon estima que cada cria possa atingir valor de mercado entre R$ 18 mil e R$ 25 mil, dependendo da qualidade genética e da cor da fibra.
Imagem: Reprodução
A presença de Ana Castela, artista com forte engajamento nas plataformas digitais, eleva a visibilidade do projeto. Somadas, as contas da cantora e do influenciador ultrapassam 30 milhões de seguidores, o que amplia potenciais parcerias comerciais com marcas de ração premium, equipamentos de manejo e roteiros de agroturismo. Especialistas ouvidos pelo setor apontam que esse tipo de exposição acelera a adoção de práticas de bem-estar animal, pois pressiona criadores a apresentar rotinas transparentes de cuidado, vacinação e alimentação.
O plano de médio prazo envolve a construção de um espaço de visitação educativa para escolas e turistas, seguindo normas de biossegurança. A projeção é receber até 5 mil visitantes anuais a partir de 2025, contribuindo para a economia local com geração de empregos diretos em manejo, guia de turismo e serviços de alimentação.
Aspectos sanitários e regulamentação
A importação e o trânsito interestadual de alpacas no Brasil são regidos pela Instrução Normativa nº 15/2020 do Ministério da Agricultura, que exige comprovação de vacinação contra clostridioses, exame negativo de brucelose e tuberculose, além de testes de dermatofilose. No caso de Odete, a documentação foi conferida pela Defesa Agropecuária de Santa Catarina na barreira de Mafra, ponto de entrada do estado para veículos procedentes do Sudeste.
A alpaca permanece sob supervisão de veterinários credenciados, que realizarão coleta de sangue em 30 dias para novo exame sorológico, conforme protocolo estadual de monitoramento pós-chegada. Em paralelo, está em curso a formalização do registro genealógico no Serviço de Identificação de Raças Camelídeas (SIRC), etapa que assegura rastreabilidade e valor comercial do animal.
Conclusão técnica
A transferência bem-sucedida de Odete para Araranguá demonstra a viabilidade logística e sanitária de deslocamentos de longa distância envolvendo camelídeos no Brasil. A parceria entre Ana Castela e Cesar Rincon deve acelerar a difusão da criação de alpacas em Santa Catarina, respaldada por mercado consumidor em expansão e por políticas públicas favoráveis à diversificação rural. Os próximos marcos previstos incluem o início do programa reprodutivo em até cinco meses e a abertura estruturada para visitação, etapas que poderão posicionar a região como polo emergente no segmento de camelídeos sul-americanos.



