Americanas reduz prejuízo ao vender 10 unidades do Natural da Terra para o Oba Hortifruti por R$ 69,3 milhões

A Americanas fechou a venda de 10 lojas deficitárias da rede Hortifruti Natural da Terra em São Paulo para o grupo Oba Hortifruti por R$ 69,3 milhões, operação que coincide com a divulgação de um prejuízo líquido de R$ 336 milhões no 1T26 — valor 24,8 % menor que o registrado um ano antes, refletindo esforços de enxugamento e integração entre canais físico e digital.

Desempenho financeiro do 1T26 indica início de recuperação

A receita líquida da companhia somou R$ 3,1 bilhões no trimestre encerrado em março, avanço de 20,2 % frente ao mesmo período de 2025. O lucro bruto atingiu R$ 834 milhões, crescimento de 16,6 %, enquanto a margem bruta recuou 0,8 p.p., para 27 %. A administração atribui o resultado à otimização de despesas operacionais e ao progresso da estratégia omnicanal, pilares essenciais do plano de recuperação judicial instaurado após o escândalo contábil de R$ 20 bilhões revelado em 2023.

Os números sinalizam que a varejista começa a conter perdas ao concentrar recursos em operações de maior retorno e reduzir estruturas de custo consideradas excedentes. Mesmo ainda negativa, a linha do resultado líquido evidencia menor pressão no caixa, elemento vital para renegociar dívidas e restaurar credibilidade junto a fornecedores e investidores.

Estratégia de desinvestimento: foco na eficiência operacional

A alienação das unidades do Hortifruti Natural da Terra integra um programa mais amplo de racionalização de portfólio. Segundo fato relevante, as lojas vendidas apresentavam desempenho inferior ao do restante da bandeira, consumindo capital de giro e impactando margens. Ao transferi-las, a Americanas pretende alocar recursos em áreas com maior giro de estoque, além de reduzir despesas fixas relacionadas a locações, pessoal e logística.

No acordo, o Oba Hortifruti pagará R$ 10,395 milhões à vista e o saldo em 24 parcelas mensais, ajustado pela variação positiva do CDI. A estrutura de pagamentos diluída oferece liquidez imediata, mas mantém um fluxo mensal de caixa a médio prazo, suporte adicional para o plano de recuperação.

Desde a deflagração da crise contábil, a Americanas já havia colocado à venda ativos não essenciais, renegociado contratos de fornecedores e revisado processos internos. A operação atual reforça a postura de “estrutura mais magra”, conceito reiterado pela diretoria como indispensável para o retorno ao campo positivo até o fim de 2027.

Impacto para Oba Hortifruti e exigências regulatórias

Para o comprador, a aquisição possibilita incorporar pontos comerciais prontos, localizados em regiões de alto consumo de produtos frescos no Estado de São Paulo. Ao aproveitar sinergias logísticas e práticas de gestão próprias, o Oba espera elevar a produtividade das lojas adquiridas, expandindo participação em um mercado no qual já atua de forma relevante.

A conclusão definitiva do negócio depende da apreciação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Embora operações de menor porte costumem receber sinal verde, o órgão avaliará eventual concentração regional e impactos competitivos sobre fornecedores e consumidores. O processo de análise pode levar alguns meses; durante esse período, as lojas permanecem sob gestão da Americanas, sem alteração na rotina de clientes e colaboradores.

Perspectivas para a reestruturação da Americanas

Analistas acompanham a capacidade da empresa de transformar ganhos pontuais em melhoria sustentada de margem. A projeção de investimentos segue moderada, concentrada em tecnologia para integração de estoques, expansão seletiva de “dark stores” e reforço da plataforma digital. Além disso, a companhia negocia com credores alongamentos de prazo e descontos de dívida, fatores que, se confirmados, poderão reduzir despesas financeiras e acelerar o equilíbrio operacional.

A venda de ativos improdutivos deve prosseguir. Executivos já sinalizaram estudos sobre outros pontos deficitários do Natural da Terra e de marcas menores dentro do grupo. Cada movimentação será comunicada ao mercado em consonância com as obrigações impostas pelo processo de recuperação judicial.

Conclusão Técnica

A alienação de 10 lojas deficitárias ao Oba Hortifruti representa passo tático no plano de reestruturação da Americanas, que registrou redução de 24,8 % no prejuízo do 1T26 e geração adicional de liquidez. A transação, condicionada ao parecer do Cade, alinha-se ao objetivo de cortar custos, fortalecer operações rentáveis e preservar caixa durante a fase crítica de recuperação. A continuidade da disciplina financeira, combinada à integração de canais e venda de ativos não essenciais, definirá a trajetória da companhia rumo à retomada de resultados positivos nos próximos trimestres.