Iron, labrador de 10 anos, e sua filha Léia, de 7 anos e meio, foram oficialmente retirados das operações do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC) durante a cerimônia de passagem de comando da Organização Bombeiro Militar de Porto União, no Planalto Norte. O desligamento simultâneo encerra três gerações de cães de busca certificados que, desde 2008, atuaram em algumas das ocorrências mais críticas do país, incluindo o rompimento da barragem em Brumadinho e os deslizamentos em Petrópolis.
Linha do tempo operacional de Iron
Filho do lendário Brasil — primeiro cão do CBMSC com certificação internacional —, Iron iniciou sua trajetória em Xanxerê sob condução do cabo Josclei Tracz. Entre 2014 e 2024, a dupla acumulou mais de 70 ocorrências e 7 certificações, uma delas internacional.
• Brumadinho (MG) – 2019: único cão catarinense presente em todas as fases de busca; retornou ao local após uma cirurgia emergencial na pata direita, realizada no hospital de campanha do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais.
• Resgate em Xanxerê – 2020: localizou, em menos de 30 minutos, um idoso de 86 anos desaparecido havia 24 h em área de mata fechada.
• Apoio à investigação em Chapecó – 2023: identificou ossadas humanas a 3 m de profundidade, consolidando a especialização em busca por restos mortais, implementada pelo CBMSC em 2021.
A carreira de Léia e a continuidade da linhagem
Neta de Brasil e filha de Iron, Léia foi conduzida pelo cabo David Canever, da OBM de Canoinhas. Desde o estágio de filhote, a cadela passou por treinamentos diários em ambientes urbanos, rurais, aquáticos e noturnos, utilizando GPS para rastreamento de desempenho.
• Petrópolis (RJ) – 2022: integrou a equipe catarinense que atuou por 10 dias no Morro da Oficina, epicentro dos deslizamentos que resultaram em mais de 200 mortes; trabalhou ao lado de Iron, configurando a rara participação conjunta de pai e filha em missão interestadual.
• Operações regionais – 2018 a 2024: participou de ao menos 18 buscas oficiais na Serra e no Planalto Norte, frequentemente envolvendo idosos e crianças desaparecidas em trilhas densas.
• Certificações: habilitação plena para buscas urbanas, rurais e de restos mortais, reforçando a padronização multiespecialista da tropa canina catarinense.
Modelo catarinense de treinamento e gestão genética
O CBMSC foi uma das primeiras corporações brasileiras a adotar o regime em que o cão vive com o condutor em tempo integral, fortalecendo o chamado binômio bombeiro-cão. Esse modelo garante disponibilidade operacional 24 h e favorece o treinamento baseado exclusivamente em reforço positivo.
• Raça predominante: labrador, selecionado pelo equilíbrio entre olfato, robustez e temperamento dócil sob estresse.
• Linhas de sangue: todos os cães operacionais pertencem à mesma linhagem iniciada por Brasil, com cruzamentos planejados para reduzir predisposição a displasias e doenças hereditárias.
• Estatísticas: desde 2008, três gerações de labradores somaram mais de 200 missões oficiais em Santa Catarina e em sete estados brasileiros, contribuindo para localizações bem-sucedidas em enchentes, deslizamentos e desaparecimentos em mata.
Imagem: Divulgação
Conclusão Técnica
Com a desmobilização de Iron e Léia, o CBMSC inicia fase de transição em seu grupamento cinotécnico, já preparativo para a entrada de novos cães oriundos da mesma linhagem. A corporação mantém, para 2024, calendário de certificações nacionais voltadas a buscas terrestres, urbanas e de restos mortais, com previsão de incorporar pelo menos quatro novos labradores aos batalhões de Porto União, Xanxerê, Canoinhas e Florianópolis. A estratégia assegura continuidade operacional enquanto preserva o legado genético estabelecido por Brasil, garantindo que a experiência acumulada em missões emblemáticas, como Brumadinho e Petrópolis, permaneça como referência técnica para futuras ocorrências de grande impacto.



