Berkshire Hathaway revela rumo pós-Buffett: Greg Abel assume palco, defende cultura corporativa e mantém aposta gigante em Apple

No sábado, 2 de maio de 2026, no CHI Health Center, em Omaha, Nebraska, o canadense Greg Abel comandou pela primeira vez a assembleia anual de acionistas da Berkshire Hathaway como diretor-executivo, enquanto o lendário Warren Buffett — agora apenas presidente do conselho — assistia da primeira fila. O encontro definiu quem conduz a empresa, o que muda na estratégia, onde estão os focos de investimento, quando ocorrerão as próximas alocações e por que a cultura interna continua sendo vista como o maior ativo do conglomerado.

Uma passagem de bastão marcada por tributos

O evento começou com um gesto simbólico: uma camisa azul com o nome de Buffett e o número 60 — referência às seis décadas de liderança do investidor — foi içada até as vigas da arena. Em seguida, o próprio “Oráculo de Omaha” pegou o microfone para lembrar que fazia exato um ano desde o anúncio de Abel como sucessor.

“Não poderíamos ter tomado decisão melhor”, declarou Buffett. Ele destacou que Abel replica as práticas de governança que consolidaram a reputação da Berkshire, ao mesmo tempo em que adiciona velocidade ao processo decisório.

Ao agradecer, Abel reiterou que a cultura corporativa continuará intocável. Para ele, a combinação entre descentralização operacional, autonomia dos gestores de subsidiárias e prudência no uso do caixa permanecerá norteando cada investimento.

Transformação digital impulsiona demanda por energia

Um dos pontos centrais da apresentação foi a crescente necessidade de capacidade elétrica nos Estados Unidos, puxada pelo avanço de grandes provedores de nuvem e centros de processamento de dados. Abel informou que a Berkshire Energy já atende, hoje, uma fatia de consumo considerada elevada entre as utilities do país e que esse volume pode aumentar 50% nos próximos cinco anos.

Para dar conta da expansão, a companhia vem reforçando contratações de desenvolvedores e ampliando projetos de digitalização. O executivo salientou, contudo, que qualquer solução tecnológica terá de gerar valor adicional palpável aos negócios. “Não vamos adotar ferramentas só pela novidade”, advertiu.

Os custos de reforço da infraestrutura, segundo Abel, serão arcados integralmente pelos próprios operadores de data centers, preservando a tarifa cobrada dos consumidores residenciais. Mesmo assim, ele alertou que regulamentações estaduais e federais sobre repasse de riscos ainda representam um desafio, exigindo diálogo constante entre empresas, órgãos reguladores e Legislativos locais.

Carteira concentrada em quatro colunas principais

Quando o assunto migrou para investimentos em ações, Abel reforçou a política de concentração em poucos nomes de alta confiança. Aproximadamente US$ 200 bilhões seguirão alocados em quatro participações “centrais”:

Apple – o aporte original de US$ 35 bilhões cresceu para algo próximo de US$ 185 bilhões, incluindo valorização não realizada e dividendos;
American Express – parceria histórica que une marca forte, base fiel de clientes e barreira de entrada no setor de cartões;
Moody’s – fornecedora de ratings de crédito vitais para mercados globais;
Coca-Cola – geradora de fluxo de caixa robusto há décadas.

Além desse núcleo, o portfólio engloba investimentos relevantes em Bank of America, Chevron, Alphabet e em cinco grandes casas de comércio japonesas, todos considerados estratégicos para horizontes de longo prazo.

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Imagem: Internet

Abel deixou claro que continua “absolutamente colaborando” com Buffett na análise de cada movimento, respeitando o conceito do “círculo de competência” popularizado pelo veterano: investir apenas em negócios compreendidos a fundo pela administração.

Liquidez recorde sustenta apetite por aquisições

Com excedentes que ultrapassam US$ 150 bilhões em caixa e títulos do Tesouro norte-americano, a Berkshire está pronta para efetuar aquisições integrais, aumentar participações em companhias listadas ou reinvestir nas próprias subsidiárias sempre que enxergar preço atraente.

Segundo Abel, a preferência continua sendo financiar crescimento com recursos próprios, evitando emissões de dívida que comprometeriam a independência financeira. Ele ressaltou que a estrutura de conglomerado permite redirecionar capital rapidamente entre setores tão diversos quanto seguros, ferrovias, energia e varejo.

Números do primeiro trimestre reforçam poder operacional

Poucas horas antes da assembleia, a empresa divulgou lucro operacional de US$ 11,3 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 18% em relação ao mesmo período de 2025. O indicador exclui ganhos e perdas contábeis ligados a oscilações de mercado, foco das autoridades reguladoras nos Estados Unidos.

Abel explicou que o avanço decorreu, em especial, de melhora no resultado do segmento de seguros, da resiliência das ferrovias e da margem ampliada na divisão de energia. Ele sublinhou que o conglomerado não depende de fatores extraordinários para sustentar o desempenho, pois cada subsidiária adota metas próprias de rentabilidade.

Próximos passos: disciplina e continuidade

Encerrando a reunião, Abel reafirmou que a Berkshire seguirá avaliando oportunidades sem pressa, apoiada em três pilares: cultura descentralizada, balanço robusto e foco em ativos compreensíveis. O “Oráculo de Omaha”, por sua vez, deixou clara a confiança na nova gestão, levantando aplausos ao declarar que a transição foi “cem por cento bem-sucedida”.

Com esse recado, o grupo sinaliza ao mercado que a sucessão não altera a essência do modelo de negócios, mas adiciona fôlego para enfrentar desafios regulatórios e tecnológicos que devem marcar a próxima década.

Com informações de Seu Dinheiro