Bank of America eleva projeção da Selic para 14,25% e aponta último corte de juros em junho

O Bank of America revisou a estimativa para a taxa Selic no fim de 2026 de 13,25% para 14,25%, indicando que o ciclo de afrouxamento monetário deve encerrar-se após um derradeiro corte de 0,25 ponto percentual na reunião de 17 de junho do Comitê de Política Monetária (Copom).

Revisão das projeções e cronograma do Banco Central

Em relatório assinado pelo economista-chefe para o Brasil, David Beker, o Bank of America (BofA) adotou postura mais conservadora diante do novo cenário macroeconômico. A instituição estima:

  • Selic a 13,25% ao ano até a próxima decisão do Copom;
  • Redução final de 0,25 p.p. em 17 de junho, levando a taxa a 13,00%;
  • Manutenção prolongada nesse patamar até meados de 2027, quando seria reavaliada a convergência da inflação à meta de 3,0%.

A mudança na projeção coloca o BofA em linha com outras casas de análise que já interromperam a expectativa de cortes adicionais. Itaú BBA, XP Investimentos e BTG Pactual trabalham com estimativas entre 13,75% e 14,25% para o fim de 2026, reforçando a percepção de que a política monetária permanecerá contracionista por período mais longo.

Três vetores que sustentam juros mais altos

No documento, o BofA elenca três razões centrais para sustentar uma Selic elevada:

  1. Inflação em aceleração – O banco observa deterioração dos índices de preços. O IPCA acumulado em 12 meses atingiu 4,37%, enquanto as expectativas para o encerramento de 2026 subiram para 5,09%. O movimento eleva o chamado “canal das expectativas”, tornando a trajetória de desinflação mais lenta.
  2. Câmbio valorizado, porém volátil – O dólar opera em torno de R$ 5,15, valorização de cerca de 3% frente à cotação da última reunião do Banco Central. A perspectiva é de estabilidade relativa, mas com episódios de volatilidade que tendem a repassar pressões de preços a insumos importados.
  3. Atividade econômica resiliente – Consumo das famílias e investimentos corporativos seguem firmes, impulsionados por gastos fiscais e expansão do crédito. A força da demanda interna dificulta a redução natural dos preços, justificando juros altos como inibidor do superaquecimento.

Riscos adicionais monitorados pelo mercado

Além dos vetores principais, o relatório menciona fatores que, caso materializados, podem prolongar o ambiente de inflação elevada:

  • Fenômenos climáticos – A recorrência do El Niño afeta safras agrícolas, pressionando alimentos.
  • Mudanças regulatórias e trabalhistas – Discussões como o eventual fim da jornada 6×1 podem alterar custos de produção e serviços.
  • Política fiscal expansiva – Programas de transferência de renda e investimentos públicos ampliam a base de consumo, elevando a demanda agregada.

Embora tais elementos ainda não tenham peso total nas projeções, o BofA avalia que seu monitoramento é essencial para evitar surpresas adversas.

Consequências para o crédito, investimentos e expectativas

A permanência da Selic acima de 14% tem implicações diretas sobre o custo do dinheiro. Entre os efeitos observados:

  • Crédito mais caro – Financiamentos imobiliários e linhas para capital de giro acompanham o rendimento dos títulos públicos, limitando novas contratações.
  • Retorno atrativo em renda fixa – Títulos do Tesouro Direto atrelados à Selic e papéis de crédito privado oferecem prêmios elevadíssimos, redirecionando parte do fluxo que iria para a renda variável.
  • Pressão sobre o fiscal – Dívida pública indexada à taxa básica tende a crescer, exigindo esforços adicionais de ajuste para manter a trajetória sustentável.

No ambiente corporativo, empresas dependentes de capital intensivo devem ajustar planos de investimento, priorizando projetos com retorno rápido ou financiamentos externos em moeda forte. Já para o consumidor, a combinação de juros altos e inflação persistente comprime a renda disponível, desacelerando gradualmente o comércio.

Conclusão técnica

Com a revisão do Bank of America, consolida-se a visão de que a política monetária brasileira ingressa em fase de estabilidade prolongada, sem espaço para novos estímulos em 2026. O Copom tende a efetuar o corte residual de 0,25 p.p. em 17 de junho e, a partir daí, adotar postura de vigilância sobre a convergência da inflação à meta de 3,0%. A intensidade dos três vetores – inflação corrente, comportamento do câmbio e nível de atividade – orientará qualquer ajuste futuro, mas o ponto de partida estimado de 14,25% coloca o Brasil entre as economias emergentes com maior juro real, reafirmando o compromisso de ancoragem das expectativas.