Grandes pedidos de recuperação judicial acenderam o alerta no mercado de renda fixa, mas gestores apontam que o crédito privado continua saudável e que a atual reprecificação dos spreads pode abrir espaço para retornos mais atrativos nos próximos meses.
Contexto recente: juros altos prolongados e casos de grande visibilidade
A combinação de taxa Selic em dois dígitos desde 2022 e endividamento corporativo elevado gerou pressões concentradas em empresas de consumo e varejo. Entre janeiro e maio de 2026, Raízen, Pão de Açúcar e Grupo Toky protocolaram recuperações judicial ou extrajudicial, movimentando mais de R$ 25 bilhões em dívidas reestruturadas. Apesar do impacto midiático, Ulisses Nehmi, CEO da Sparta, sustenta que os episódios são pontuais e não configuram risco sistêmico.
O executivo destaca que os pedidos partiram de companhias cujos indicadores de alavancagem já ultrapassavam 4,0 vezes dívida líquida/Ebitda antes da escalada de juros. Nessa leitura, o aumento nas taxas apenas antecipou ajustes inevitáveis. Ainda assim, o noticiário provocou uma percepção generalizada de instabilidade que pressionou cotas de fundos de debêntures e gerou resgates recordes em março e abril.
Reprecificação dos spreads: como o ciclo afeta preços e liquidez
Em 2025, o forte ingresso de recursos em fundos de renda fixa reduziu o spread médio das debêntures de AA para o patamar de CDI +1,0% ao ano, o menor da série histórica iniciada em 2014. A sequência de resgates verificada em 2026 inverteu a dinâmica: alguns papéis de igual rating passaram a negociar acima de CDI +2,0%, comprimindo preços e gerando marcação a mercado negativa nos portfólios.
Nehmi descreve o movimento como um ciclo vicioso: queda de preço → retorno negativo → novos resgates → mais vendas forçadas → nova queda de preço. Segundo estimativas da Sparta, aproximadamente R$ 8 bilhões em títulos corporativos foram vendidos no secundário de janeiro a abril para cobrir saques, o dobro do volume registrado em igual período de 2024.
Ainda não há consenso sobre o ponto de inflexão. Dados compilados pela ANBIMA indicam que o spread médio precisa se estabilizar entre CDI +1,7% e CDI +1,9% para que novos fluxos superem os resgates. Até lá, a volatilidade pode permanecer acima da média histórica de 0,3 ponto percentual ao mês.
Janela de investimento: títulos isentos e indexados à inflação ganham tração
Mesmo defendendo cautela no timing, Nehmi avalia que a assimetria risco-retorno começa a beneficiar o investidor com horizonte acima de 24 meses. Dois nichos concentram as recomendações mais frequentes:
1. Debêntures incentivadas e LCI/LCA – A isenção de IR entrega um yield adicional de até 2,5% ao ano quando comparado a alternativas tributadas. Com a Selic em 12,75% ao ano, esse diferencial representa quase 20% do retorno líquido para o investidor pessoa física.
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2. Títulos IPCA+ e prefixados longos – As NTN-B de vencimento 2035 negociam próximo de IPCA +6,0%, patamar considerado elevado em termos reais. Já papéis prefixados 2031 de emissores grau de investimento pagam cerca de 12,3% ao ano. A estratégia recomendada é travar essas taxas em portfólios que não demandem liquidez imediata, capturando ganhos de marcação a mercado quando o ciclo de afrouxamento monetário se consolidar.
Uma análise da Sparta Asset projeta que, caso a Selic recue para 9,0% em 2027, debêntures atuais de rating AA poderiam gerar retorno total superior a 25% em termos nominais, combinando cupom com valorização de preço.
Riscos monitorados e métricas de seleção de crédito
Apesar das oportunidades, gestores mantêm foco em cobertura de juros (EBITDA/Despesa Financeira) superior a 2,5x e geração de caixa operacional positiva nos últimos doze meses como filtros mínimos. Setores sensíveis ao ciclo, como varejo de moda e construção civil, permanecem sob observação, enquanto energia, saneamento e concessões rodoviárias concentram as recomendações por exibirem fluxo contratual indexado à inflação.
Outro ponto crítico é a divergência de ratings. Entre janeiro e abril, 17% das emissões listadas sofreram ao menos um rebaixamento, segundo a Standard & Poor’s. Em resposta, fundos têm reduzido a exposição máxima por emissor de 10% para 7% do patrimônio, mitigando eventuais choques de precificação.
Conclusão técnica
A sucessão de recuperações judiciais expôs fragilidades de empresas altamente alavancadas, mas não comprometeu a integridade do mercado de crédito privado brasileiro. O ajuste de spreads em curso tende a continuar até que a remuneração compense a percepção de risco acrescida pelos investidores. Enquanto isso, ativos isentos de IR e títulos de prazo longo indexados à inflação ou prefixados despontam como alternativas para portfolios com horizonte estendido. A normalização completa dependerá da trajetória da Selic, do ritmo de desinflação e da disciplina fiscal, fatores que serão reavaliados a cada comunicado do Comitê de Política Monetária nos próximos trimestres.




