O desconhecimento sobre o Custo Efetivo Total (CET) faz com que milhões de brasileiros assumam empréstimos mais caros do que imaginam, mesmo quando a parcela “cabe no bolso”; enquanto o endividamento atinge 81,2% das famílias e a inadimplência alcança 29,9%, ignorar esse indicador aprofunda o rombo financeiro e dificulta a reorganização do orçamento.
Endividamento em nível recorde pressiona o orçamento familiar
Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que, em maio de 2026, o endividamento domiciliar alcançou 81,2%, o maior percentual da série histórica. Dentro desse universo, o cartão de crédito permanece como principal origem das dívidas, citado por 84,6% dos lares pesquisados. Em sequência aparecem carnês (16,1%), crédito pessoal (13,1%) e outras modalidades (6,9%).
A mesma pesquisa aponta que a inadimplência chegou a 29,9%, indicando quase um terço das famílias com contas em atraso. O cenário reflete a corrosão do poder de compra e a dificuldade crescente de manter as finanças equilibradas, sobretudo quando as decisões de crédito se baseiam apenas em valor de parcela e taxa nominal de juros.
CET revela o custo real por trás da taxa de juros anunciada
Criado pela Resolução nº 3.517/2007 do Banco Central, o Custo Efetivo Total consolida todos os encargos incidentes sobre uma operação de crédito: taxa de juros, IOF, seguros, tarifas de cadastro, serviço de terceiros e demais despesas. Na prática, o CET evidencia quanto o consumidor pagará de fato até o encerramento do contrato.
Duas linhas de crédito com mesma taxa nominal podem exibir CETs diferentes, pois cada instituição financeira adota políticas próprias para seguros ou tarifas. Sem considerar o indicador, o tomador assume compromissos que aparentam baratos, mas se revelam mais onerosos ao longo dos meses.
Comparativo de empréstimos expõe R$ 680 de diferença oculta
Para ilustrar, avalie dois financiamentos de R$ 10.000, parcelados em 48 vezes, com taxas mensais anunciadas entre 1,80% e 1,85%:
Empréstimo A – taxa nominal de 1,80% a.m., IOF de R$ 380, tarifa de cadastro de R$ 150 e seguro prestamista de R$ 480. Valor total desembolsado: R$ 16.890. CET anual: 28,4%.
Empréstimo B – taxa nominal de 1,85% a.m., IOF de R$ 380, sem outras cobranças. Valor total desembolsado: R$ 16.210. CET anual: 26,1%.
A despeito da taxa menor, quem escolheu o Empréstimo A pagará R$ 680 a mais. A diferença emerge exclusivamente dos encargos adicionais, capturados pelo CET, mas invisíveis quando a análise se concentra na taxa divulgada.
Troca de dívidas: como usar o CET para pagar menos
Especialistas recomendam a substituição de dívidas de maior custo por outras de CET inferior. A estratégia envolve quatro etapas:
Imagem: Internet
1. Mapear contratos vigentes e identificar o CET de cada um, informação disponível no próprio documento ou solicitada ao credor.
2. Pesquisar alternativas mais baratas; linhas com garantia — como crédito consignado, empréstimo com imóvel em garantia ou veículo alienado — costumam exibir CET reduzido.
3. Contratar o novo empréstimo já prevendo a quitação antecipada do débito original.
4. Liquidar a obrigação antiga, encerrando a dívida mais cara e permanecendo apenas com a operação de menor custo.
A troca proporciona alívio imediato no fluxo de caixa e, em muitos casos, prazos mais extensos para amortização, elevando a previsibilidade do orçamento.
Crédito consignado privado ganha tração como opção de CET mais baixo
No mercado de trabalho regido pela CLT, o consignado privado desponta como modalidade de crédito competitivo. As parcelas são debitadas diretamente do salário via eSocial, o que reduz o índice de inadimplência e, consequentemente, o CET final. Limites de comprometimento, contudo, respeitam o teto de 35% da renda, incluindo eventuais cartões consignados.
Entre as instituições que oferecem essa linha, o PAN opera com contratação 100% digital, prazos de até 36 meses e possibilidade de simulação online. Embora cada proposta passe por análise de crédito, a estrutura com desconto em folha costuma resultar em CET inferior ao de empréstimo pessoal convencional ou rotativo do cartão.
Os dados da CNC confirmam que o endividamento elevado se agrava quando o consumidor ignora o Custo Efetivo Total. Comparar somente parcela ou taxa nominal mascara despesas agregadas e compromete o planejamento financeiro. Ao adotar o CET como parâmetro principal — seja para contratar, renegociar ou transferir dívidas — o tomador passa a medir o impacto real sobre a renda e ganha base objetiva para priorizar modalidades de menor encargo, como o crédito consignado privado. A tendência é que, com disseminação dessa métrica, novos produtos de crédito ajustem suas estruturas de custo, oferecendo maior transparência e competitividade nos próximos ciclos.




