CVM suspende registro de quatro empresas em recuperação judicial e remove ações da B3

A Comissão de Valores Mobiliários suspendeu nesta terça-feira (19) os registros de 2W Ecobank, Cia Tecidos Santanense, Rossi Residencial e Teka Tecelagem, todas em recuperação judicial, impedindo a negociação de seus valores mobiliários em qualquer segmento regulado, incluindo a B3.

Decisão da CVM e fundamentos regulatórios

A Superintendência de Relações com Empresas (SEP) identificou que as quatro companhias deixaram de cumprir, há mais de 12 meses, a entrega de formulários previstos na Resolução CVM 80, norma que disciplina a divulgação de informações periódicas e eventuais por emissores listados. Diante da reincidência, o órgão aplicou a sanção de suspensão de registro, prevista no art. 8º da mesma resolução, medida que proíbe negociação em bolsa, balcão organizado ou não organizado.

O ato administrativo preserva a responsabilização de controladores e administradores por eventuais infrações anteriores, inclusive a obrigação de atualizar demonstrações financeiras, fatos relevantes e outros documentos exigidos.

Segundo a autarquia, o objetivo é “proteger a integridade do mercado e assegurar tratamento equitativo a investidores”, evitando que companhias sem transparência continuem acessando o ambiente regulado.

Histórico das companhias afetadas

Teka Tecelagem atravessa um dos processos de recuperação judicial mais longos do país, iniciado em 2012. Em 2026, a Justiça catarinense chegou a decretar sua falência, revertida semanas depois pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina a pedido do fundo Alumni FIP, que hoje lidera a reestruturação após afastar a família fundadora Kuehnrich. O novo plano inclui a monetização de ativos imobiliários para saldar dívidas trabalhistas.

A Cia Tecidos Santanense, controlada pela Coteminas, voltou ao noticiário após o passivo superior a R$ 2 bilhões que levou o grupo a pedir recuperação em 2024. A estratégia apresentada ao juízo prevê venda da fábrica centenária em Itaúna (MG), criação de fundos imobiliários e reorganização financeira.

Rossi Residencial, pioneira no mercado de capitais em 1997, entrou em recuperação em 2022 com dívida superior a R$ 1 bilhão após perder fôlego no pós-boom imobiliário dos anos 2000. A empresa ainda enfrenta litígios societários entre a família fundadora Rossi e o investidor Silvio Tini, que mobilizaram sete arbitragens na CAM-B3; um acordo preliminar foi anunciado para destravar a governança.

A energética 2W Ecobank – sucessora da antiga 2W Energia – vem tentando redesenhar o modelo de negócios para comercialização e geração de energia renovável. O pedido de recuperação ocorreu em 2023 após desequilíbrio de caixa e dificuldade de captação em mercados de dívida.

Consequências para acionistas e próximos passos

A suspensão de registro acarreta restrição imediata de liquidez. Investidores que ainda detêm ações passam a depender de eventual migração para o chamado mercado de balcão não organizado, onde a negociação é permitida apenas após reativação do registro ou concessão de regime especial.

Para reverter a sanção, as companhias devem:

  • Regularizar a entrega de Formulário de Referência, demonstrações financeiras auditadas e demais documentos atrasados;
  • Comprovar o pagamento de multas cominatórias aplicadas pela autarquia;
  • Apresentar plano de conformidade, detalhando controles internos para garantir a tempestividade de informações futuras.

Na prática, a readmissão na B3 costuma ocorrer somente após o cumprimento integral das exigências regulatórias e manifestação favorável da área técnica da CVM, processo que pode levar meses ou até anos, dependendo da complexidade de cada caso.

Cenário regulatório e jurisprudência recente

Nos últimos cinco anos, a CVM intensificou o uso de medidas preventivas para emissores inadimplentes. Entre 2021 e 2025, ao menos 15 companhias tiveram o registro suspenso por descumprimento do dever de informação. Parte delas permaneceu fora do mercado regulado por mais de dois ciclos contábeis, o que reforça o caráter dissuasório da sanção.

Em paralelo, a B3 vem estabelecendo critérios mais rígidos para permanência em seus segmentos, incluindo a exigência de free float mínimo e compliance regulatório. A dupla vigilância da bolsa e do regulador busca reduzir assimetrias de informação e mitigar riscos sistêmicos.

Conclusão técnica

A suspensão de 2W Ecobank, Cia Tecidos Santanense, Rossi Residencial e Teka Tecelagem resulta do prolongado descumprimento das normas de divulgação impostas pela Resolução CVM 80. Enquanto não regularizarem a prestação de informações e quitarem pendências, as companhias permanecerão impedidas de negociar ações na B3, limitando a liquidez de investidores e adicionando pressão sobre seus respectivos planos de recuperação judicial. O próximo marco regulatório será a apresentação de demonstrativos atualizados; somente após a validação pela CVM poderá haver análise sobre eventual reativação de registro e retorno ao mercado organizado.