Resultados da Direcional reforçam escudos contra pressão inflacionária e mantêm atração aos investidores

Direcional divulgou lucro líquido de R$ 213 milhões no 1T26, crescimento de 30% em relação ao ano anterior; segundo o CEO Ricardo Gontijo, a construtora dispõe de carteira de recebíveis indexada ao INCC e estoque ajustável de preços que funcionam como barreira natural contra a alta de custos provocada pela escalada do petróleo após a guerra no Oriente Médio.

Desempenho financeiro robusto sustenta confiança

A divulgação de resultados da Direcional (DIRR3) na noite de 11 de maio confirmou a expectativa de analistas de que a companhia continuaria a entregar rentabilidade acima da média do setor. A receita líquida alcançou R$ 1,2 bilhão, expansão de 30%, enquanto o Ebitda ajustado somou R$ 315 milhões, avanço de 47% na comparação anual. O retorno sobre o patrimônio líquido anualizado permaneceu elevado, em 39%.

Mesmo após distribuição de R$ 804 milhões em dividendos em dezembro último e venda de 15% da participação na subsidiária Riva, a companhia gerou fluxo de caixa livre ajustado positivo de R$ 21 milhões, contrariando a projeção negativa de bancos de investimento. A dívida líquida encerrou o trimestre em R$ 613 milhões, equivalente a 24% do patrimônio líquido. Considerando passivos de cessão de crédito, a alavancagem amplia-se para 82%, mas permanece sob controle, segundo relatórios de BTG Pactual e Itaú BBA.

Às 12h10 do dia seguinte à publicação do balanço, as ações subiam 1,87%, cotadas a R$ 13,09, enquanto o Ibovespa recuava 0,89%. As casas de análise reiteraram recomendação de compra, com preços-alvo de R$ 20 (BTG) e R$ 16 (BBA), o que representa potenciais de valorização de 56% e 25%, respectivamente.

Recebíveis indexados blindam margens contra alta do petróleo

O principal argumento do executivo para minimizar o impacto da recente escalada do Brent—efeito colateral direto do conflito envolvendo Irã—é o volume de recebíveis atrelados ao Índice Nacional de Custo da Construção. Atualmente, a Direcional detém R$ 2,7 bilhões em créditos corrigidos pelo INCC, dos quais R$ 1,8 bilhão referem-se à operação da Riva e R$ 900 milhões à carteira da marca principal. Esses montantes funcionam como hedge natural: se o INCC acelerar em razão de petróleo mais caro, as receitas futuras acompanham o mesmo ritmo, preservando margens.

Segundo Gontijo, apenas R$ 1,7 bilhão dos R$ 4,4 bilhões em custos a incorrer nas obras em execução não estão diretamente cobertos pelos recebíveis indexados. Para essa fatia, a estratégia recai sobre o estoque lançado—R$ 5 bilhões, majoritariamente em construção—que pode ser reprecificado de acordo com a inflação de insumos. A empresa mantém velocidade de vendas (VSO) em torno de 25% justamente para garantir poder de precificação em cenários adversos, mesmo que parte do mercado prefira rotação de estoque mais acelerada.

O CEO relembrou que, no auge da pandemia em 2021, o INCC registrou saltos superiores aos observados hoje, impulsionados por gargalos logísticos globais e explosão de demanda por materiais. “O choque atual nos custos, derivado da alta do petróleo, não se compara ao que enfrentamos naquele período”, disse Gontijo na teleconferência. Ele ponderou que a companhia não trabalha com cenário base de explosão de custos no curto prazo, mas mantém protocolos de contingência já testados.

Analistas destacam resiliência operacional e cenário setorial

Relatórios de BTG Pactual e Itaú BBA ressaltam que a Direcional apresenta sensibilidade menor ao INCC do que outras incorporadoras de baixa renda, atributo que se soma às alterações recentes no programa Minha Casa Minha Vida, ampliando subsídios e limites de financiamento. Esse movimento aumenta o poder de precificação da companhia sem comprometer a demanda, favorecendo a manutenção das margens mesmo em ambiente de custos elevados.

O setor de construção civil, historicamente suscetível à inflação de insumos — aço, cimento e derivados de petróleo — monitora de perto os desdobramentos da crise no Oriente Médio. Embora a commodity tenha subido mais de 20% desde o início do conflito, parte das pressões já foi mitigada por expectativas de trégua diplomática e aumento de produção de grandes exportadores.

No curto prazo, analistas acreditam que o mix de receitas indexadas, disciplina na velocidade de lançamentos e sólido histórico de execução operacional posicionam a Direcional entre as empresas mais protegidas. A construtora negocia a múltiplos de 7 vezes o lucro estimado para 2026 e 5 vezes para 2027, níveis considerados atrativos frente aos pares, especialmente quando ponderados pelo retorno sobre patrimônio de quase 40%.

Conclusão técnica

A divulgação do 1T26 confirma a capacidade da Direcional de converter receita em lucro mesmo sob ambiente potencialmente inflacionário. A carteira de recebíveis indexada ao INCC, aliada a estoque passível de reprecificação e disciplina de vendas, forma um tripé de proteção contra choques de custos, cenário reforçado pela experiência adquirida durante a pandemia. Se o petróleo continuar volátil, a construtora dispõe de mecanismos financeiros e operacionais suficientes para absorver pressões, sustentando margens e fluxo de caixa. Mantidas as atuais premissas macroeconômicas e a evolução do programa habitacional federal, a companhia deve prosseguir no ciclo de crescimento com rentabilidade elevada, mantendo-se entre as preferências de bancos de investimento para o segmento de incorporação de baixa renda.