Eleições 2026: como a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro já redefine a curva de juros e o custo da dívida pública

Com o registro oficial das candidaturas até 15 de agosto e o início da propaganda eleitoral em 16 de agosto, a corrida presidencial de 2026 passa a influenciar diretamente a curva de juros brasileira, alterando expectativas sobre dívida pública, câmbio e trajetória da Selic.

Calendário eleitoral concentra atenção de investidores a partir de agosto

Os partidos têm até 15 de agosto para protocolar suas chapas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e a propaganda em rádio, TV e plataformas digitais será liberada em 16 de agosto. Esse intervalo marca a transição entre um ambiente dominado por pesquisas esporádicas e outro no qual debates, inserções televisivas e eventos de rua ganham escala nacional. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, deixando pouco mais de sete semanas para que as campanhas consolidem narrativas.

Tradicionalmente, a segunda quinzena de agosto fortalece as estruturas regionais dos candidatos, enquanto setembro concentra pesquisas de opinião de alta frequência, sabatinas e debates decisivos. Para o mercado financeiro, essas janelas funcionam como gatilhos de volatilidade, pois cada novo dado de intenção de voto é rapidamente precificado em contratos de Depósitos Interfinanceiros (DI), câmbio e Ibovespa.

Fotografia das pesquisas mostra liderança de Lula, mas margem estreita mantém disputa aberta

Levantamentos nacionais divulgados até 5 de agosto apontam o ex-presidente Lula à frente do senador Flávio Bolsonaro em um potencial segundo turno, com diferença que varia de 4 p.p. a 6 p.p.. A última pesquisa Quaest, por exemplo, registrou 44 % para Lula contra 39 % para Flávio, enquanto na rodada anterior o placar era de 45 % a 37 %. O recuo de um ponto percentual no petista e o avanço de dois pontos no candidato do PL reforçam a percepção de competitividade.

Além da disputa polarizada, ambos exibem rejeições elevadas: sondagem Datafolha de julho revelou que 48 % dos entrevistados não votariam em Flávio de forma alguma, ao passo que 46 % rejeitam Lula. Esse contexto obriga as campanhas a dialogar com um eleitorado ainda volátil — especialmente mulheres, renda média urbana e segmentos do Sudeste e Nordeste — enquanto procuram reduzir resistência entre indecisos.

A evolução das intenções de voto ganha relevância adicional porque influencia projeções de política fiscal. Programas de governo preliminares indicam abordagens distintas: a coligação de Lula discute limitação mais rígida ao crescimento das despesas, enquanto a equipe de Flávio defende redução de impostos e revisão orçamentária ampla. Embora nenhum dos lados tenha apresentado matemática completa de arrecadação e corte de gastos, o tom do debate já afeta expectativas sobre a dívida bruta — atualmente em 81,1 % do PIB, segundo dados de maio do Banco Central.

Curva de juros reage a cada oscilação nas projeções fiscais

Com a Selic em 14 % ao ano e ciclo de queda gradual iniciado pelo Banco Central, a ponta longa da curva DI permanece sensível ao risco fiscal. Durante o primeiro semestre de 2026, contratos para 2031 e 2035 oscilaram em resposta direta à divulgação de cenários eleitorais. Sinais de continuidade de gastos elevados favoreceram abertura de 30 a 50 pontos-base em alguns pregões, enquanto indicações de arcabouço mais restritivo permitiram fechamento parcial dessas taxas.

O movimento ocorre porque investidores antecipam a trajetória esperada da dívida federal. Caso se presuma expansão fiscal prolongada, o prêmio exigido para títulos prefixados e atrelados ao IPCA sobe, encarecendo o custo de rolagem do Tesouro. Se, pelo contrário, houver perspectiva de ajuste crível, os juros reais de longo prazo tendem a ceder — beneficiando câmbio, múltiplos da bolsa e projetos de capital intensivo.

A combinação de dívida elevada (9,62 % do PIB de déficit nominal em 12 meses) e juros altos amplia a sensibilidade da curva às flutuações políticas. Analistas ressaltam que o mesmo dado de pesquisa pode provocar leituras opostas, a depender de como o mercado interpreta a probabilidade de cada candidato aprovar reformas no Congresso.

Governabilidade e composição do Congresso definirão viabilidade de programas econômicos

Além do Executivo, as eleições de outubro renovarão Câmara e parte do Senado. Partidos de centro e centro-direita, como MDB, PSD e União Brasil, ainda não formalizaram apoio nacional a Flávio, enquanto o PT busca ampliar coalizão em torno de Lula com legendas como PSB e PCdoB. O grau de adesão parlamentar será crucial para transformar promessas em leis orçamentárias, novo arcabouço fiscal ou eventuais alterações em regras de teto de gastos.

Historicamente, quanto maior a base governista efetiva (além de 308 votos na Câmara para emendas constitucionais), menor a incerteza sobre aprovação de medidas impopulares de ajuste. A experiência recente do país mostra que fracassos na agenda legislativa costumam provocar abertura expressiva na curva prefixada, depreciar o real e reduzir o apetite estrangeiro por ativos domésticos.

Nesse sentido, a governabilidade funciona como variável de segunda ordem: mais do que o plano econômico em si, o mercado avalia a capacidade política de entregá-lo. Por isso, alianças regionais, escolha de vices e pactos de centro adquirem peso equivalente às propostas setoriais.

Conclusão Técnica

Com a largada oficial da campanha em 16 de agosto, a eleição de 2026 deixa de ser um fator distante e passa a integrar o núcleo de precificação dos ativos brasileiros. Lula inicia a etapa formal na liderança, mas a vantagem estreita mantém Flávio Bolsonaro competitivo. Cada variação de intenção de voto será escrutinada à luz de dois eixos: sustentabilidade fiscal e viabilidade legislativa. Diante de uma dívida em 81,1 % do PIB e Selic ainda em dois dígitos, o prêmio de risco continuará reagindo a qualquer sinal de expansão de gastos não financiada. Se um programa consistente de estabilização da dívida ganhar probabilidade, há espaço para compressão nos juros longos, valorização do real e recomposição de múltiplos na bolsa. Caso contrário, a curva prefixada tende a sofrer novos episódios de abertura, refletindo maior custo de financiamento para o Estado a partir de 2027.