Redução da classe média brasileira: estudo aponta perda de poder de compra e avanço do endividamento

A trajetória ascendente da classe média brasileira perdeu fôlego: um levantamento da Kinea revela que, após uma década de mobilidade social, o objetivo deixou de ser ascender e passou a ser manter o padrão de vida, pressionado por perda de poder de compra, custos acima da inflação e endividamento recorde.

Do ciclo de bonança (2003-2013) ao reajuste de expectativas

O relatório da Kinea identifica o período compreendido entre 2003 e 2013 como a fase de maior expansão da classe média. Naquele intervalo, a combinação de boom das exportações de commodities, valorização real do salário-mínimo, ampliação do crédito e participação ativa do setor público em investimentos gerou mobilidade social concreta. Milhões de famílias incorporaram bens duráveis, viagens e serviços privados ao cotidiano.

Segundo o estudo, a percepção de enriquecimento estrutural foi potencializada por variáveis passageiras. O crescimento do PIB ultrapassou 5 % ao ano em vários exercícios, enquanto o desemprego caiu para índices próximos de 6 %. Esse quadro sustentou a narrativa de uma “nova classe média” com fôlego para consumir.

A virada começou em 2014. A recessão empurrou a inflação para o topo do intervalo da meta, reduziu o ritmo de criação de vagas formais e desorganizou as contas públicas. Com isso, o custo de bens e serviços típicos da classe média – como plano de saúde e educação privada – passou a registrar variações acima do IPCA médio.

Pressão de custos e erosão do poder de compra

O levantamento destaca que a manutenção de itens considerados corriqueiros tornou-se mais onerosa. Planos de saúde avançaram, em média, 9,6 % ao ano entre 2014 e 2025, quase o dobro da inflação acumulada no período. No mesmo intervalo, mensalidades escolares privadas subiram cerca de 8,4 % anuais.

Para ilustrar a perda de acessibilidade, a Kinea calcula que a aquisição de um carro popular exige hoje 25,1 meses do salário médio nacional, ante 17 meses em 2013 – alta de quase 50 % na dificuldade de compra. A comparação internacional reforça o hiato: na Coreia do Sul e em Taiwan, um smartphone premium (iPhone 16 Pro) demanda menos de um mês de remuneração média, enquanto no Brasil são necessários pelo menos três meses.

O orçamento doméstico também sente o peso de despesas recorrentes. Em São Paulo e Rio de Janeiro, moradia, contas públicas, internet e uma refeição mensal fora de casa consomem entre 30 % e 40 % do salário médio. Já em Xangai (China) e Seul (Coreia do Sul) o mesmo conjunto representa cerca de 10 %, evidenciando maior resiliência do poder de compra em outros mercados emergentes.

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Endividamento recorde e mudança na função do crédito

Com a renda insuficiente para cobrir custos correntes, famílias migraram para linhas de crédito mais onerosas. A taxa de endividamento atingiu 50 % da renda, o maior nível da série histórica do Banco Central. Cartão de crédito rotativo e cheque especial, cuja taxa anual ultrapassa 350 % em alguns bancos, passaram a ser utilizados não para antecipar consumo futuro, mas para substituir uma renda que deixou de crescer em termos reais.

A Kinea observa que, historicamente, quedas no desemprego e elevação salarial melhoravam a saúde financeira das famílias. No entanto, mesmo com taxa de desocupação abaixo de 7 % em 2025, o alívio não se materializou. A combinação de memória de consumo, expectativa de pertencimento e maior custo de vida consolidou um sentimento de regressão.

Outro fator de vulnerabilidade é a baixa amplitude da rede de proteção social para esse estrato. Diferentemente de países onde saúde e educação públicas cobrem parcela significativa da classe média, Brasil transfere esses gastos diretamente ao orçamento familiar, ampliando a exposição a choques de renda.

Conclusão Técnica

O diagnóstico da Kinea sinaliza que a sustentabilidade da classe média brasileira depende de crescimento econômico prolongado e expansão consistente da renda estrutural. Sem esse pilar, o consumo continuará avançando por canais artificiais de crédito, aumentando o risco de inadimplência e aprofundando a sensação de perda de status.

Os analistas mencionam agenda de longo prazo composta por abertura comercial, qualificação educacional, disciplina macroeconômica e incremento do investimento privado como rotas capazes de restaurar o poder de compra. A viabilidade política dessas medidas, contudo, permanece incerta, o que indica que o desafio de preservar a classe média deverá persistir nos próximos anos.