FIDCs superam R$ 800 bilhões e miram R$ 1 trilhão impulsionados por mudanças regulatórias

Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) alcançaram R$ 800 bilhões em patrimônio, 25 anos após sua criação, e devem ultrapassar a marca de R$ 1 trilhão nos próximos meses, segundo Daniel Belem, gestor de fundos estruturados de crédito da BTG Pactual Asset Management. O avanço ganhou força após a flexibilização das regras, há dois anos, que permitiu o acesso do investidor de varejo a essa classe de ativos, antes restrita a aplicadores de alta renda.

Evolução da indústria de FIDCs

Desde 2024, quando a Comissão de Valores Mobiliários autorizou a participação do público geral, a indústria de FIDCs registrou expansão de cerca de 60%. O volume administrado saltou de R$ 500 bilhões para R$ 800 bilhões em apenas 24 meses, superando pela primeira vez o patrimônio somado dos fundos de ações no Brasil. Belem atribui o ritmo acelerado à busca das empresas por captação direta no mercado de capitais, reduzindo dependência dos bancos tradicionais e diversificando fontes de financiamento.

No mesmo período, o número de veículos disponíveis ao varejo ultrapassou a marca de 450, contra menos de 100 antes da revisão regulatória. A expectativa do setor aponta para um crescimento adicional de R$ 200 bilhões ainda em 2026, o que consolidaria a indústria acima do patamar de R$ 1 trilhão.

Estrutura de cotas e camadas de proteção

O diferencial dos FIDCs frente a outros fundos de crédito reside na possibilidade de segmentar o risco por meio de três classes de cotas:

  • Subordinada – primeira a absorver perdas em caso de inadimplência;
  • Mezanino – intermédia, com risco e retorno moderados;
  • Sênior – camada mais protegida, preferencial no fluxo de pagamentos.

Na prática, a empresa que cede os direitos creditórios costuma adquirir parte relevante das cotas subordinadas, arcando com a “primeira perda” e alinhando interesses com os demais investidores. Esse mecanismo, aliado à pulverização de milhares de créditos dentro dos portfólios, reduz a exposição a calotes concentrados. Belem destaca carteiras geridas pela BTG Asset com “dezenas de milhares” de contratos, diluindo o impacto financeiro quando pequenos devedores deixam de pagar.

Potencial de rentabilidade

Os FIDCs ganham destaque por entregarem retornos acima do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), principal benchmark de renda fixa no país. De acordo com Belem, a rentabilidade média observada em cada classe de cota é a seguinte:

  • Sênior: CDI + 1 ponto percentual a CDI + 2 p.p., exemplificada por fundos focados em consignado do INSS;
  • Mezanino: CDI + 2 p.p. a CDI + 3 p.p.;
  • Subordinada: CDI + 4 p.p. ou mais, compensando maior exposição a eventos de crédito.

O Apolo FIDC, principal produto da BTG Asset, detém R$ 1,5 bilhão em patrimônio e vem entregando retorno de CDI + 2,7 p.p. no primeiro ano de operação. O fundo possui 45 ativos originados por empresas com histórico consolidado, adota prazo de resgate D+90 para mitigar pressões de liquidez e mantém política de seleção que veda operações com credores não testados.

Critérios de análise antes do aporte

Embora as camadas de proteção reduzam riscos, especialistas recomendam examinar:

  1. Qualidade dos créditos – segmento econômico, garantias e histórico de inadimplência;
  2. Experiência do gestor – tempo de atuação, performance histórica e processos de governança;
  3. Estrutura de subordinação – porcentual de cotas subordinadas adquirido pelo originador;
  4. Diversificação – quantidade de sacados, setores e geografias cobertos.

A transparência dos relatórios mensais, exigida pela regulamentação, facilita o acompanhamento dos indicadores de default, nível de subordinação e prazos médios. Investidores também devem observar a tributação, que segue a tabela regressiva de imposto de renda aplicável a fundos de curto ou longo prazo, conforme a duração média da carteira.

Conclusão Técnica

Com patrimônio recorde e perspectivas de romper a barreira de R$ 1 trilhão, os FIDCs consolidam-se como alternativa relevante tanto para empresas em busca de financiamento quanto para investidores que almejam retornos superiores ao CDI. A combinação de camadas de proteção, amplo horizonte de ativos e ajustes regulatórios tende a sustentar o crescimento do segmento no médio prazo. A continuidade dessa trajetória, entretanto, dependerá da manutenção da qualidade dos créditos subjacentes e da disciplina na estruturação das cotas, fatores que permanecem no centro do radar de gestores e reguladores.