Fim da taxa das blusinhas amplia vantagem de plataformas asiáticas e pressiona cadeia têxtil brasileira, adverte Riachuelo

O cancelamento da alíquota de 20% sobre importações de até US$ 50 reacendeu o risco de perda de mercado para o varejo nacional, segundo o CEO da Riachuelo, que vê na decisão um estímulo direto às gigantes asiáticas e uma ameaça aos 18 milhões de empregos gerados pela cadeia têxtil brasileira.

Entenda a decisão governamental e o novo cenário tributário

Em 15 de maio de 2026, o governo federal confirmou a extinção da chamada “taxa das blusinhas”, que desde 2024 adicionava 20% de Imposto de Importação às compras internacionais de baixo valor. A mudança devolve a isenção às remessas de até US$ 50, além de manter a cobrança de ICMS estadual, cuja alíquota média gira entre 17% e 19%. Para consumidores, o preço final tende a cair imediatamente; para varejistas locais, porém, a medida amplia a assimetria de custos frente a marketplaces como Shein, Shopee, Temu e AliExpress.

Segundo levantamento do BTG Pactual, o Brasil chegou a receber 18 milhões de encomendas mensais antes da tributação. Após o início da cobrança, o volume recuou a 11 milhões no fim de 2024, mas voltou a 15 – 17 milhões com subsídios logísticos oferecidos pelas plataformas estrangeiras. Analistas do banco projetam que a reversão da tarifa pode restaurar o pico anterior ainda em 2026.

Reação do varejo: custos internos versus vantagens externas

Para André Farber, CEO da Riachuelo, a isenção equivale a “incentivo indireto à indústria chinesa” dentro do mercado brasileiro. O executivo lembra que quem fabrica no país arca com:

  • 35% de Imposto de Importação sobre insumos ou peças prontas;
  • 11,25% de PIS/Cofins;
  • encargos trabalhistas que elevam o custo Brasil.

Farber frisa que o Brasil mantém a única cadeia têxtil completa do Ocidente, empregando diretamente 1,9 milhão de CNPJs – a maioria micro e pequenas empresas – e sustentando 18 milhões de postos de trabalho diretos e indiretos. Com a retirada da tarifa, ele enxerga riscos adicionais à sobrevivência desse ecossistema produtivo.

A Lojas Renner (LREN3) adotou tom semelhante. Em comunicado, a companhia defendeu isonomia tributária para todos os agentes que atuam no país e afirmou que benefícios concedidos a estrangeiros deveriam ser estendidos às empresas instaladas em território nacional.

Impactos estimados para consumo, empregos e margens

Análises do BTG Pactual apontam que a retirada da alíquota pode provocar três movimentos principais:

  1. Queda de preços ao consumidor em categorias sensíveis a renda – vestuário, acessórios, beleza e utilidades domésticas.
  2. Ganho de participação de mercado para plataformas de comércio transfronteiriço, cuja estrutura de custos permanece mais enxuta.
  3. Pressão sobre margens de varejistas focadas em público de renda média e baixa, entre elas Riachuelo, Renner e C&A, que já enfrentam desafios de repasse de preços.

Embora continuem presentes entraves logísticos, volatilidade cambial e prazos de entrega mais longos para importadores, o banco avalia que a vantagem estrutural das plataformas internacionais fica novamente reforçada, sobretudo com avanços em hubs de distribuição e acordos pós-alfandegários.

Conclusão Técnica

Ao zerar o Imposto de Importação para remessas de até US$ 50, o governo reabre espaço para a expansão acelerada de marketplaces asiáticos e acentua a disparidade de custos entre produção local e comércio externo. Dados do BTG Pactual sugerem que o fluxo de encomendas pode retomar — e até superar — o patamar de 18 milhões de pacotes por mês, pressionando margens de redes brasileiras já expostas ao consumidor sensível a preço. Diante desse quadro, entidades do setor devem intensificar negociações por ajustes regulatórios ou compensações fiscais, enquanto varejistas nacionais tendem a rever estratégias de preço, mix de produtos e integração digital para mitigar a perda de competitividade nos próximos trimestres.