Finanças e utilidades dominam alocação de gestores na B3, indica pesquisa da Empiricus

Gestores de fundos de ações long only aumentaram a exposição aos setores financeiro e de utilidades públicas em junho, segundo levantamento da Empiricus Research realizado entre 2 e 9 de junho. O estudo mostra preferência clara por empresas de resultados previsíveis em um ambiente de juros elevados e incerteza externa, ao mesmo tempo em que revela redução do caixa médio e expectativa de retorno real acima da média histórica.

Preferência concentrada em setores de resiliência

De acordo com a pesquisa, 48 % das gestoras apontaram o segmento financeiro como a principal posição de carteira, ante 41 % no mês anterior. Utilidades públicas avançaram de 23 % para 29 %, consolidando ambos os setores como os mais citados nas alocações prioritárias — juntos, representam 77 % das maiores posições.

A opção por bancos, empresas de energia elétrica e saneamento reflete a busca por fluxos de caixa estáveis e regulação previsível. Tais características ganham relevância em um cenário marcado pela saída de capital estrangeiro e pela manutenção de juros em patamar alto, fatores que encurtam a margem de erro dos gestores.

Setores como aluguel de veículos e logística, infraestrutura, petróleo e gás, saúde e nichos do mercado imobiliário também figuram com avaliação positiva. Já alimentos e bebidas permanecem na ponta menos favorecida do mapa de calor elaborado pela consultoria, ainda que o sinal não implique leitura pessimista absoluta — apenas menor atratividade relativa.

Caixa menor indica retomada gradual de risco

O estudo registra queda do caixa médio das carteiras de 9,7 % para 7,5 %, movimento que aproxima o indicador da média histórica de 7,1 %. A diminuição sugere maior disposição a risco após meses de postura defensiva motivada por volatilidade global e debates domésticos sobre política monetária.

Em paralelo, a Taxa Interna de Retorno (TIR) real média projetada pelos portfólios alcançou 17,4 %, superando a média de longo prazo de 13,8 %. O número embute expectativa de valorização adicional das empresas presentes nas carteiras, mesmo diante da moderação nas estimativas de crescimento econômico.

Apesar do apetite renovado, a composição setorial evidencia seletividade. O petróleo e gás, por exemplo, deixou de ser principal posição após registrar 14 % de participação em abril e maio, enquanto o varejo recuou de 14 % para 10 %. Esses ajustes denotam preferência por teses menos sensíveis a ciclos de consumo e commodities.

Métricas operacionais permanecem sob controle

A alavancagem média das companhias nos portfólios retornou a 1,5 vez dívida líquida/Ebitda, patamar alinhado ao histórico captado pela Empiricus. O indicador sugere que os gestores continuam disciplinados quanto ao risco de crédito corporativo, privilegiando balanços robustos e capacidade de geração de caixa.

Outro aspecto monitorado é a previsibilidade regulatória. Empresas de concessões, energia e saneamento são beneficiadas por contratos de longo prazo e reajustes atrelados à inflação, fatores que contribuem para a resiliência de resultados. Bancos, por sua vez, exibem margens consolidadas mesmo em ciclos de aperto monetário, sustentadas por diversificação de receitas.

Nesse contexto, gestoras demonstram menor tolerância a modelos de negócios altamente ciclícos ou dependentes de expansão agressiva de crédito, o que explica a cautela adicional em segmentos de consumo discricionário.

Setores em observação e possíveis recalibrações

A leitura menos favorável para alimentos e bebidas não reflete necessariamente deterioração estrutural, mas ressalta competição acirrada, compressão de margens e sensibilidade a custos de insumos. O varejo também figura em condição de monitoramento, pressionado por endividamento das famílias e alta base de comparação pós-pandemia.

Por outro lado, logística e infraestrutura recebem atenção crescente, apoiadas por projetos de concessões e demanda robusta do comércio eletrônico. Saúde aparece como aposta defensiva, combinando envelhecimento populacional e contratos de longo prazo com operadoras.

A rotação setorial poderá se intensificar caso ocorram cortes mais rápidos na taxa básica de juros ou melhora no fluxo de capital externo para mercados emergentes. Nessas circunstâncias, setores hoje subponderados — como varejo e petróleo e gás — podem voltar ao radar.

Conclusão Técnica

A pesquisa da Empiricus confirma que, mesmo em contexto de incerteza global e juros elevados, gestores mantêm postura construtiva em relação à bolsa brasileira, porém com viés seletivo. O aumento de participação em finanças e utilidades públicas, aliado à redução do caixa médio e a TIR real de 17,4 %, indica disposição calculada a risco. As métricas de alavancagem mostram controle rigoroso de endividamento, enquanto a preferência por receitas previsíveis sugere continuidade da estratégia defensiva no curto prazo. Mudanças significativas nas taxas de juros ou no fluxo estrangeiro poderão redefinir prioridades setoriais, mas, por ora, a alocação em negócios de alta resiliência permanece como principal rota de capital na B3.