Gestora Adam Capital reforça aposta na alta do dólar e segue vendida no Ibovespa após retorno que superou em 2.873% o CDI

Após registrar em maio o melhor resultado de sua história, com valorização de 30,75% no fundo Advanced e 17,3% no principal multimercado, a Adam Capital mantém posições contrárias ao consenso local: segue comprada em dólar, vendida em ações brasileiras e comprada em inflação doméstica, alegando que o ajuste fiscal no Brasil só ocorrerá sob pressão extrema.

Retorno histórico sustenta convicção da estratégia

Fundada há dez anos por Marcio Appel, a Adam Capital administra hoje aproximadamente R$ 2,9 bilhões em ativos. Em maio, o fundo Advanced entregou 30,75% de rendimento, o equivalente a 2.873,8 % do CDI, enquanto o multimercado flagship avançou 17,3 % ou 1.617 % do CDI. O desempenho recolocou os veículos da casa acima de seus benchmarks no acumulado do ano e validou a postura contrarian mantida desde 2025, quando a maior parte do mercado esperava valorização do real e recuperação ampla da bolsa.

Segundo o sócio e economista-chefe Juliano Cecílio, a recente virada não altera o núcleo da tática: “A casa permanece pragmática; a análise de fundamentos macro segue inalterada”, afirmou em entrevista. A gestora sustenta que o principal vetor de ganhos foi a exposição a empresas norte-americanas ligadas à inteligência artificial, movimento que capturou a alta de produtividade já mensurável nos Estados Unidos.

Tese fiscal: reformas só vêm após deterioração aguda

Para Cecílio, a precificação dos ativos brasileiros embute a hipótese de que o próximo governo executará um ajuste fiscal capaz de estabilizar a dívida pública. A gestora considera essa premissa improvável. “A experiência histórica mostra que reformas estruturais relevantes no Brasil ocorrem apenas quando a crise se torna incontornável”, afirma o economista. Como exemplo, menciona 2015-2016, período em que recessão, desemprego elevado e rápido crescimento do endividamento resultaram em mudanças que antes encontravam forte resistência política.

Com unemployment ainda em um dígito, câmbio estável e percepção de liquidez abundante, a Adam avalia que os incentivos políticos para contenção de gastos permanecem insuficientes. A consequência, segundo a casa, é a continuação de um impulso fiscal que conflita com a política monetária e dificulta a convergência da inflação para metas inferiores.

Carteira desalinhada ao consenso local

O portfólio atual reflete a leitura pessimista para Brasil e construtiva para a economia norte-americana:

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  • Comprada em ações dos EUA ligadas à inteligência artificial – principal driver de performance, apoiado na perspectiva de ganhos crescentes de produtividade.
  • Vendida no Ibovespa – avaliação de que as cotações locais não contemplam a estagnação da produtividade (ex-agronegócio) e o avanço da carga tributária.
  • Comprada em inflação implícita brasileira – entendimento de que o impulso fiscal prolongado eleva pressões de preços, exigindo postura mais dura do Banco Central.
  • Visão negativa para ouro – ativo teria se beneficiado de juros globais extraordinariamente baixos, cenário que a gestora não projeta para os próximos anos.

Cecílio argumenta que o ambiente internacional de higher for longer em juros aumenta o prêmio de risco exigido para economias emergentes tradicionais, penalizando países com crescimento potencial modesto e desafios fiscais recorrentes. A projeção interna é de que, sem reformas, a dívida bruta do setor público ultrapasse 95 % do PIB até 2028, patamar considerado incompatível com inflação de um dígito sustentada.

Impacto de juros globais e fluxo estrangeiro

A gestora reconhece que uma eventual mudança de postura do Federal Reserve – com início de cortes de juros – poderia gerar alívio temporário aos ativos locais via retomada parcial do fluxo para emergentes. Ainda assim, esse cenário seria classificado como efeito tático, não estrutural. “Mesmo com tailwinds externos, a tendência de produtividade negativa e a incerteza fiscal limitam a capacidade de rerating do mercado brasileiro”, avalia Cecílio.

Nesse contexto, a Adam prevê que o câmbio reflita, ao longo do segundo semestre, a diferenciação de fundamentos entre Brasil e países com política fiscal mais previsível. A projeção interna indica dólar na faixa de R$ 6,00 caso o impulso fiscal doméstico se intensifique, superando o teto informal de R$ 5,50 observado em 2025. Já o Ibovespa poderia recuar para níveis próximos a 130 mil pontos, ante máximas de quase 200 mil registradas no fim do ano passado.

Conclusão Técnica

Os retornos extraordinários obtidos em maio consolidam a posição da Adam Capital como uma das casas mais dissidentes do mercado brasileiro. A gestora sustenta que o binômio de juros internacionais elevados e ausência de ajuste fiscal doméstico continuará a favorecer exposição a ativos estrangeiros, sobretudo tecnologia norte-americana, enquanto pressiona a bolsa local e o real. O cenário base aponta para manutenção de posições vendidas no Ibovespa, compradas em dólar e em inflação implícita, até que sinais objetivos de consolidação fiscal se materializem – fator que, historicamente, só emerge em momentos de estresse agudo.