A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de eliminar o Imposto de Importação para encomendas internacionais de até US$ 50, anunciada em 12 de maio de 2026 e válida a partir desta quarta-feira, desencadeou reação imediata de entidades industriais e varejistas brasileiras enquanto plataformas globais como Amazon e Shein celebraram o novo cenário tributário.
Detalhes da nova política tributária e seu histórico
O corte total do imposto federal para remessas de baixo valor encerra a cobrança popularmente conhecida como “taxa das blusinhas”. O governo manteve apenas a incidência de 20 % de ICMS — tributo estadual — sobre essas compras. Para valores acima de US$ 50, segue vigente a alíquota de 60 % de Imposto de Importação.
Segundo o Ministério da Fazenda, a medida tornou-se viável após “três anos de combate ao contrabando”, conforme declarou o secretário-executivo Rogério Ceron durante a assinatura da Medida Provisória. A pasta sustenta que a regularização do setor de remessas internacionais reduziu distorções e viabilizou a renúncia fiscal.
O imposto extinto havia sido instituído em agosto de 2024 por meio do programa Remessa Conforme, criado para monitorar compras em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress. De janeiro a abril de 2026, a Receita Federal arrecadou R$ 1,78 bilhão com a taxa, montante 25 % superior ao registrado em igual período do ano anterior.
Reações negativas da indústria e do varejo brasileiros
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) classificou a decisão como “vantagem concedida a fabricantes estrangeiros em detrimento da produção nacional”. A entidade argumenta que o impacto recairá principalmente sobre micro e pequenas empresas, com risco de cortes de empregos.
No varejo, o Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV) afirmou que a revogação “amplia a desigualdade tributária” e pode reduzir vendas de pequenas e médias empresas. O instituto lembrou que, após a instituição da alíquota de 20 % em 2024, o setor abriu 107 mil postos de trabalho no primeiro ano e registrou aumento de investimentos.
A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) considerou a medida “extremamente equivocada” e “inadmissível”, citando a elevada carga tributária, juros reais altos e custos regulatórios enfrentados pelas empresas locais. Já a Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex) alertou para possível ameaça a 18 milhões de empregos diretos e indiretos no setor, defendendo a adoção de ações compensatórias para preservar negócios nacionais.
No Congresso, a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Propriedade Intelectual e Combate à Pirataria também criticou a decisão. O deputado Júlio Lopes (PP-RJ) declarou que “não existe competitividade quando o empresário brasileiro paga impostos altos e o produto importado entra sem tributação”.
Imagem: Internet
Posicionamento das plataformas internacionais de e-commerce
Em sentido oposto, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) — que reúne Amazon, Alibaba, Shein, 99 e outras companhias — comemorou a revogação, chamando a tributação extinta de “extremamente regressiva”. De acordo com a entidade, a antiga taxa limitava o poder de compra das classes C, D e E e aprofundava a desigualdade social no acesso ao consumo.
As empresas estrangeiras veem o novo cenário como oportunidade para ampliar participação no mercado brasileiro de comércio eletrônico, que movimentou aproximadamente R$ 185 bilhões em 2025, segundo dados da Ebit|Nielsen. Com a isenção, a expectativa é de aumento no volume de pedidos de baixo valor, segmento no qual esses marketplaces já detêm posição dominante.
Possíveis impactos econômicos e projeções
Analistas consultados por entidades industriais projetam pressão adicional sobre a produção doméstica, em especial nos ramos têxtil, calçadista e de utilidades domésticas. A CNI estima que, mantido o ritmo atual de importações de pequeno porte, o setor fabril pode registrar retração de até 4 % no faturamento anual até 2027.
Por outro lado, associações de consumidores apontam potencial redução de preços finais entre 8 % e 12 % para artigos populares, favorecendo o consumo das camadas de menor renda. A renúncia fiscal não foi quantificada oficialmente, mas cálculos preliminares de consultorias tributárias indicam perda de arrecadação próxima a R$ 2 bilhões por ano, valor que o Ministério da Fazenda pretende compensar com aumento projetado da atividade econômica.
A discussão sobre eventual reposição da alíquota ou adoção de salvaguardas industriais tende a ganhar força no Congresso nas próximas semanas. Entidades do varejo doméstico já preparam propostas que incluem cotas de isenção por CPF e programas de estímulo a cadeias produtivas nacionais.
Conclusão técnica e próximos passos
A extinção do Imposto de Importação para compras internacionais de até US$ 50 redefine a matriz concorrencial do varejo brasileiro ao reduzir barreiras de entrada para produtos estrangeiros de baixo valor. Enquanto Amazon e Shein projetam expansão de mercado, entidades como CNI, Abit e IDV alertam para riscos concretos de perda de empregos e fechamento de fábricas. O impacto fiscal, estimado em cerca de R$ 2 bilhões anuais, ainda carece de compensação detalhada pelo governo. Nas próximas semanas, o debate legislativo sobre medidas compensatórias, salvaguardas setoriais e possíveis ajustes no programa Remessa Conforme deverá determinar o alcance definitivo da medida e sua influência sobre a competitividade da indústria brasileira.




