Guerra no Irã mantém juros altos e reacende debate sobre bolha no mercado imobiliário, mas analista vê oportunidades em FIIs

Tensões geopolíticas no Oriente Médio prolongam o ciclo de juros elevados no Brasil, aumentam a pressão sobre incorporadoras e levantam dúvidas sobre uma possível bolha no mercado imobiliário; o analista Caio Araujo, da Empiricus Research, descarta o estouro iminente, mas identifica riscos específicos e aponta fundos imobiliários como alternativa de rendimento e eficiência tributária.

Juros persistentes e expansão de lançamentos sustentam o debate

As estimativas consolidadas no Relatório Focus indicam Selic em dois dígitos até 2027, cenário reforçado pela guerra envolvendo o Irã, que eleva o prêmio de risco global e restringe ciclos de afrouxamento monetário. A permanência da taxa básica em patamar elevado encarece o crédito imobiliário, encurtando a demanda por novos financiamentos e pressionando margens de construtoras.

Mesmo assim, o volume de 14,4 milhões m² de novas obras residenciais aprovadas entre 2016 e 2025, segundo dados do IBGE, demonstra aceleração do setor. Fatores estruturais justificam o avanço: o Novo Plano Diretor de São Paulo — em vigor desde 2014 e revisado em 2024 — estimulou adensamento em eixos de transporte, enquanto o programa Minha Casa Minha Vida passou a absorver R$ 98 bilhões em subsídios federais acumulados até 2025. Para Caio Araujo, esse pano de fundo econômico-social afasta o risco imediato de colapso generalizado de preços, característica típica de bolhas.

Incorporadoras de média renda enfrentam tripla pressão: custos, estoque e alavancagem

A escalada de 16 % nos custos de insumos de construção, medida pelo INCC-DI nos 12 meses encerrados em abril de 2026, já reduz a rentabilidade de empresas focadas em unidades de ticket médio entre R$ 350 mil e R$ 800 mil. De acordo com o analista da Empiricus Research, construtoras concentradas na capital paulista e com estrutura de capital alavancada — razão dívida líquida/PL superior a 80 % — perderam poder de repasse de custos e podem registrar compressão de margens nos próximos trimestres.

O estoque disponível também cresceu. Dados da Abrainc indicam 44 mil unidades em oferta somente na Região Metropolitana de São Paulo no 1T26, alta de 12 % em relação ao mesmo período do ano anterior. A menor disposição do comprador, consequência direta da Selic elevada, amplia o ciclo de venda — hoje em 11,3 meses, contra 8,9 meses em 2024. Esses elementos compõem o “alerta amarelo” citado por Araujo, sobretudo para companhias que dependem de giro rápido de estoque para sustentar fluxo de caixa.

Fundos imobiliários ganham tração com reforma tributária e déficit habitacional crônico

Apesar do encarecimento do crédito, o segmento de baixa renda preserva demanda devido ao déficit habitacional estimado em 5,8 milhões de moradias, segundo o Ministério das Cidades. Nesse nicho, Araujo destaca a Direcional (DIRR3), que opera com margem bruta próxima de 36 % e mantém pipeline de projetos pulverizado em diversas capitais.

No mercado secundário, os Fundos de Investimento Imobiliário mostraram resiliência. O Índice de Fundos Imobiliários (IFIX) acumulou alta de 7,4 % em 2026 até abril, superando o Ibovespa, que cedeu 3,1 % no mesmo intervalo. A reforma tributária, promulgada em dezembro de 2025, criou o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) e alterou as regras para holdings patrimoniais, mas manteve a isenção de IR sobre rendimentos de FIIs que atendam a requisitos de diversificação e número de cotistas. Esta manutenção fortalece o apelo do veículo como instrumento de planejamento fiscal para grandes patrimônios.

Entre os segmentos preferidos, o especialista cita os FIIs de logística e shopping centers, impulsionados por e-commerce e recuperação do consumo presencial. Já os fundos de lajes corporativas negociam a desconto médio de 15 % sobre o valor patrimonial, oferecendo oportunidade de ganho potencial caso a vacância continue recuando. Em contrapartida, Araujo mantém postura cautelosa em relação aos FIIs de papel, expostos a Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) indexados a IPCA + spread elevado, por entender que o prêmio de risco se estreitou.

Dentro da categoria hedge funds de FIIs, que misturam posições em imóveis físicos, crédito e ações do setor, o fundo Mauá Capital Real Estate (MCRE11) é o principal destaque de 2026, com retorno ajustado ao risco 2,3 p.p. acima do IFIX nos últimos doze meses, segundo dados públicos da B3.

Conclusão Técnica

As evidências analisadas indicam que, embora o aumento de lançamentos e os juros elevados reforcem preocupações, não há sinais estatísticos de sobrevalorização sistêmica que caracterizem uma bolha no mercado imobiliário brasileiro. O equilíbrio entre déficit habitacional, programas de subsídio e disciplina de crédito limita a formação de preços especulativos. Entretanto, incorporadoras de média renda altamente alavancadas permanecem vulneráveis ao tripé custo de construção, estoque elevado e demanda retraída. Para investidores, a reforma tributária consolida os FIIs como alternativa eficiente, sobretudo nos segmentos de logística, shopping e estratégias híbridas. A evolução do conflito no Irã, a trajetória da Selic e a dinâmica de custos serão os vetores a acompanhar nos próximos ciclos de resultado.