Hapvida surpreende no 1T26, sinaliza venda de ativos e vê ação saltar 5%

Hapvida divulgou lucro ajustado de R$ 244 milhões no 1º trimestre de 2026, desempenho acima das projeções de mercado, enquanto a ação HAPV3 avançava cerca de 5% durante a sessão desta sexta-feira; a nova gestão confirmou estudo para alienar operações não estratégicas e reforçou foco em eficiência e desalavancagem.

Resultados financeiros evidenciam início de virada operacional

A operadora de planos de saúde Hapvida encerrou o período com receita líquida de R$ 7,89 bilhões, alta de 5,2% ano contra ano. O Ebitda ajustado atingiu R$ 803 milhões, queda anual de 20%, mas suficiente para elevar a margem em 300 pontos-base, para 10%, frente ao 4T25. O fluxo de caixa livre reverteu a queima anterior e ficou positivo em R$ 442,8 milhões, aliviando a pressão de liquidez no curto prazo.

A sinistralidade consolidada recuou 3,3 pontos percentuais em relação ao trimestre imediatamente anterior, alcançando 72,2%. Segundo relatórios de BTG Pactual, Itaú BBA e JP Morgan, o menor volume de procedimentos médicos entre o fim de 2025 e o início de 2026 contribuiu para a melhoria do indicador, embora a administração já observe retomada da demanda por cirurgias eletivas desde março.

No âmbito patrimonial, os depósitos judiciais cíveis avançaram para R$ 1 bilhão, ante R$ 934 milhões no final de 2025, refletindo a continuidade da judicialização que afeta o setor. Despesas administrativas em caixa somaram R$ 632,4 milhões, representando 8% da receita líquida e sinalizando necessidade adicional de controle de custos corporativos.

Nova liderança acelera plano de desinvestimentos e descentralização

À frente da companhia desde o início do ano, o CEO Lucas Adib enfatizou, na teleconferência de resultados, três vetores prioritários: simplificação operacional, redução da alavancagem e disciplina de capital. A estratégia inclui avaliação minuciosa de cada região onde o grupo atua, com possibilidade de venda de ativos não estratégicos ou formação de parcerias locais.

O executivo afirmou não haver “apego” a geografias específicas. A meta é concentrar recursos em polos com maior retorno, ao mesmo tempo em que se amplia a autonomia das filiais para acelerar respostas em mercados mais competitivos, como São Paulo. A companhia também intensifica o uso de análise de dados a fim de otimizar protocolos clínicos e mitigar impactos da judicialização nos custos assistenciais.

Internamente, a Hapvida revisa estruturas de governança para reduzir decisões excessivamente centralizadas. Segundo Adib, a descentralização permitirá “ganho de velocidade de execução” e melhora na experiência do beneficiário, fatores considerados essenciais para conter cancelamentos de planos, que ainda resultaram em perda líquida de 44,5 mil vidas no trimestre.

Mercado reage com cautela apesar do alívio imediato

No início da tarde, os papéis HAPV3 eram cotados a R$ 12,06, valorização de 5,4% ante o fechamento anterior, enquanto o Ibovespa recuava 1%. Analistas dos três grandes bancos de investimento mantiveram recomendação neutra, justificando que, embora o resultado mostre inflexão positiva, o processo de turnaround ainda carece de evidências consistentes.

Entre os riscos destacados estão: i) manutenção de pressões judiciais, com impacto potencial sobre sinistros; ii) ritmo moderado de crescimento de receita; iii) despesas administrativas elevadas; e iv) execução do programa de desinvestimento, cuja concretização depende de condições de mercado e aval regulatório.

O JP Morgan acrescenta que a superação das estimativas no 1T26 pode levar a revisões para cima nas projeções de lucro, caso a empresa prove ser capaz de sustentar margens mais saudáveis ao longo do ano. Já BTG Pactual e Itaú BBA reforçam que a normalização da sinistralidade precisa se confirmar nos próximos trimestres, sobretudo diante da retomada de procedimentos eletivos.

Conclusão técnica

O balanço do 1T26 indica que a Hapvida iniciou ajuste operacional bem-sucedido, refletido na melhora da sinistralidade, na reversão do fluxo de caixa livre e na expansão da margem Ebitda ajustada. A confirmação de possíveis alienações de ativos reforça o compromisso com desalavancagem e eficiência. Apesar disso, persistem desafios relacionados a perdas de beneficiários, despesas corporativas e elevação dos depósitos judiciais. Os próximos trimestres serão determinantes para validar a trajetória de recuperação e mensurar o impacto financeiro da estratégia de desmobilização de ativos.