Uma mulher de 68 anos foi encaminhada ao hospital após, segundo a polícia, ter sido dopada e agredida fisicamente pelo próprio companheiro em Apiúna, no Médio Vale do Itajaí, na última semana. A violência teria ocorrido dentro da residência do casal, em um contexto de isolamento que impedia a vítima de manter contato regular com familiares.
Histórico de suposto isolamento e ciclo de agressões
De acordo com relatos dos parentes, o companheiro controlava o celular da vítima, limitando chamadas e bloqueando o acesso à internet. Esse controle teria provocado um estado de isolamento social, impedindo a idosa de denunciar a situação ou solicitar ajuda. Informações reunidas pela investigação apontam para um possível padrão de violência continuada, caracterizado por agressões físicas frequentes e, em episódios mais recentes, pelo uso de substâncias para sedar a vítima.
Fontes ligadas à Assistência Social do município indicam que a mulher não possuía visitas regulares de amigos ou vizinhos, o que dificultou a identificação precoce dos maus-tratos. Somente após o vazamento de imagens gravadas por uma vizinha — mostrando o momento em que o suspeito, de 63 anos, golpeia a idosa — a rotina de agressões veio à tona.
Denúncia formalizada e medidas judiciais emergenciais
A família tomou conhecimento dos fatos quando recebeu os vídeos e, imediatamente, apresentou a denúncia à Polícia Civil. O material foi anexado ao inquérito e também encaminhado ao Poder Judiciário. Com base nas provas, o juiz plantonista deferiu uma medida protetiva de urgência, obrigando o suspeito a manter distância mínima de 300 metros da vítima.
Para garantir a efetividade da ordem judicial, a decisão incluiu ainda a proibição de qualquer tipo de contato, seja por telefone, mensageria ou interposta pessoa. Caso a restrição seja descumprida, o agressor poderá ser detido em flagrante por violação de medida protetiva, prevista na Lei Maria da Penha.
Investigação policial: qualificações e próximos interrogatórios
O delegado Bruno Fernando instaurou inquérito para apurar se os fatos se enquadram em maus-tratos ou crime de tortura, tipificações que preveem penas de até oito anos de reclusão, podendo ser ampliadas pela gravidade das lesões e pela condição de pessoa idosa da vítima. A investigação segue três frentes:
- Coleta de laudos médicos do hospital onde a mulher está internada, a fim de comprovar a existência de substâncias sedativas no organismo.
- Oitiva da vítima, agendada para esta semana, condicionada à liberação dos médicos responsáveis.
- Depoimentos de vizinhos, familiares e profissionais de saúde que tiveram contato com a idosa nas últimas semanas.
Somente após a conclusão dessas etapas o companheiro deverá ser formalmente interrogado. Conforme o delegado, o inquérito deve ser concluído em 30 dias, prazo que pode ser prorrogado diante da complexidade pericial.
Apoio institucional e protocolos de assistência à vítima
A Prefeitura de Apiúna, por meio do Departamento de Assistência Social, mobilizou equipe multidisciplinar composta por psicólogo, assistente social e advogado voluntário. O objetivo é garantir suporte emocional, encaminhamento jurídico e eventual acolhimento em abrigo seguro caso a idosa não possa retornar ao próprio lar.
Imagem: Reprodução
Adicionalmente, a Secretaria de Saúde disponibilizou acompanhamento ambulatorial para monitorar possíveis sequelas físicas e cognitivas decorrentes da dopagem e das agressões. O caso foi comunicado ao Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa, que deve acompanhar o desdobramento e zelar pela manutenção das medidas protetivas.
Repercussão regional e estatísticas de violência contra idosos
Segundo dados do Disque 100, o canal nacional de denúncias de violações de direitos humanos, Santa Catarina registrou 3.214 notificações de violência contra idosos em 2023, um aumento de 11% em relação ao ano anterior. Entre os municípios do Vale do Itajaí, Apiúna apresentou crescimento de 18% nas ocorrências, impulsionado principalmente por casos de violência doméstica.
Especialistas em gerontologia destacam que o isolamento, quando combinado à dependência financeira ou emocional, eleva significativamente o risco de abusos. A Organização Mundial da Saúde estima que 1 em cada 6 pessoas acima de 60 anos sofre algum tipo de violência no ambiente doméstico, cenário que tende a ser subnotificado.
Conclusão técnica
O caso de Apiúna reúne indícios robustos de violações múltiplas: agressão física, dopagem e cerceamento de liberdade. Com a vítima hospitalizada, o inquérito corre para determinar a qualificadora — maus-tratos ou tortura — e consolidar as provas periciais. A medida protetiva em vigor impede o acusado de se aproximar da idosa e estabelece base jurídica para possível prisão preventiva.
Nas próximas semanas, a autoridade policial deverá concluir os laudos toxicológicos, ouvir todas as testemunhas e encaminhar o processo ao Ministério Público. Se denunciado, o suspeito poderá responder em regime fechado, além de ficar sujeito a indenização civil pelos danos físicos e psicológicos. Paralelamente, a rede municipal de assistência mantém o suporte à vítima para reduzir riscos de revitimização e promover a reintegração social segura.



