Um pico de temperatura abaixo de 7 °C, com sensação térmica próxima de 0 °C, resultou na morte de 83 bovinos por hipotermia em cinco fazendas de Mato Grosso do Sul. A ocorrência, confirmada pela IAGRO (Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal), expôs deficiências de manejo diante de frentes frias cada vez mais frequentes no Centro-Oeste.
Distribuição geográfica das ocorrências e extensão das perdas
Segundo laudos preliminares, 74 animais sucumbiram em quatro propriedades rurais de Nova Andradina, enquanto outras 9 mortes foram registradas no município vizinho de Angélica. As fazendas afetadas mantinham o gado em regime extensivo, sem estruturas de abrigo, o que expôs os bovinos à combinação de vento, umidade elevada e queda brusca de temperatura.
A IAGRO abriu processos de inspeção sanitária para verificar eventuais falhas de manejo, estimar prejuízos econômicos e orientar produtores sobre medidas emergenciais. Técnicos coletam amostras de carcaças e avaliam condições de pastagem para compor o relatório final.
Fatores climáticos e fisiológicos que culminaram na hipotermia
Especialistas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontam que a frente fria responsável pelo episódio foi acompanhada de rajadas de vento superiores a 40 km/h e umidade relativa acima de 85 %, combinação que acelera a perda de calor corporal. Em bovinos, a hipotermia ocorre quando a temperatura interna cai abaixo de 35 °C, comprometendo funções vitais em minutos.
As raças predominantes na região—Nellore e cruzamentos zebuínos—são geneticamente adaptadas a climas quentes. Sem score corporal adequado, animais jovens ou mal nutridos geram menos calor metabólico, tornando-se mais vulneráveis. O pelo molhado pela neblina noturna perde capacidade de isolamento, e o pasto raso não oferece barreira contra vento ou radiação térmica inversa do solo.
Histórico de eventos semelhantes e evolução das práticas de manejo
O inverno de 2023 registrou, no mesmo estado, a morte estimada de 2,5 mil cabeças sob condições climáticas análogas. À época, entidades setoriais lançaram cartilhas recomendando instalação de cortinas vegetais, disponibilização de coberturas simples e suplementação energética nos dias que antecedem ondas de frio.
Imagem: gerada com Google IA Gini
No episódio atual, a redução numérica—de milhares para 83 óbitos—indica adoção parcial dessas recomendações por parte dos produtores. Entretanto, as propriedades afetadas ainda careciam de infraestrutura mínima, como galpões, quebra-ventos artificiais ou acesso rápido a rações de alto valor energético.
Repercussões econômicas e monitoramento contínuo
O preço médio de mercado para bovinos de corte em Mato Grosso do Sul gira em torno de R$ 2.300 por animal. Com base nesse valor, a perda direta ultrapassa R$ 190 mil, sem contabilizar custos de destinação de carcaças, riscos sanitários e impacto sobre o cronograma de abate.
A Federação da Agricultura e Pecuária de MS (Famasul) emitiu alerta a seus associados para intensificar o monitoramento meteorológico e revisar procedimentos de bem-estar animal. Novos boletins climáticos indicam possibilidade de outra massa de ar polar no início de julho, mantendo o sistema de vigilância e contingência em estado de atenção.
Conclusão técnica
A morte de 83 bovinos por hipotermia em Mato Grosso do Sul demonstra que, embora haja evolução no preparo contra eventos climáticos extremos, lacunas estruturais persistem em parte da pecuária regional. A IAGRO deverá finalizar laudos nos próximos dias, orientando adequações de abrigo, manejo nutricional pré-frente fria e monitoramento constante das condições meteorológicas. Produtores que implementarem essas práticas tendem a mitigar perdas futuras, enquanto órgãos de defesa sanitária reforçam a necessidade de protocolos padronizados para preservar tanto o bem-estar animal quanto a viabilidade econômica da atividade.




