O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,58 % em maio, acima da mediana de 0,55 % esperada pelos analistas, acumulando 4,72 % em 12 meses e ultrapassando o teto da meta oficial de 4,5 %. O resultado fortalece a leitura de que o Banco Central poderá interromper o ciclo de redução da Selic já na reunião do Copom de 17 de junho.
Componentes do IPCA revelam pressão concentrada em três grupos
De acordo com levantamento do Inter, alimentação e bebidas, habitação e saúde e cuidados pessoais responderam isoladamente por 101 % da variação de maio, compensando a deflação observada em alguns itens:
- Alimentação e bebidas (+1,33 %) – Fatores climáticos e oferta restrita mantêm pressão elevada desde março; refeições fora de casa avançaram 0,49 % e acumulam +1,7 % em três meses.
- Habitação (+1,22 %) – A energia elétrica residencial subiu 3,67 % em razão da bandeira amarela e reajustes tarifários de distribuidoras regionais.
- Saúde e cuidados pessoais (+0,90 %) – Itens de higiene avançaram 1,95 %; perfumes e cosméticos, afetados pelo petróleo mais caro, registraram 4,4 %.
O grupo transportes mitigou parte do choque ao registrar deflação de -0,46 %; a gasolina caiu 1,46 % e o diesel, 2,34 %, retirando 0,09 p.p. do índice cheio.
Medidas de tendência revelaram leve alívio: a média dos núcleos recuou de 0,49 % para 0,45 %, e os serviços subjacentes caíram para 0,34 %, segundo o Inter. Cálculos do Daycoval confirmam núcleos em 0,45 %, enquanto o BMG projetou 0,40 % para serviços, abaixo da estimativa anterior de 0,47 %.
Mercado ajusta apostas para a Selic diante de cenário mais restritivo
A divulgação acentuou a precificação de pausa na política de afrouxamento monetário. A curva future precifica manutenção da Selic em 14,50 % a.a., mesmo que parte do consenso ainda espere corte de 0,25 p.p. na próxima reunião. Instituições se reposicionaram:
- ASA Investimentos – Passou a prever encerramento imediato do ciclo, citando inflação corrente, expectativas em alta e ambiente externo adverso.
- BTG Pactual e Bank of America – Projetam taxa terminal de 14,25 % em 2026.
- BMG – Mantém corte de 0,25 p.p. em junho, porém com comunicação “mais dura” sobre passos futuros.
- Inter – Ainda vislumbra cortes residuais trimestrais até atingir 13,25 %, mas admite risco crescente de pausa antecipada.
Para o Bradesco, a composição do IPCA segue compatível com projeção de 5,4 % em 2026, mas o balanço de riscos permanece “assimétrico para cima”. O Itaú BBA apontou aceleração dos industriais subjacentes para 6,5 %, reforçando cautela.
Imagem: Internet
Efeitos nos investimentos e fatores climáticos adicionam incerteza
Um desdobramento imediato para o investidor é a manutenção de retornos atrativos em aplicações atreladas ao CDI e à Selic. Títulos do Tesouro Selic, CDBs pós-fixados e fundos DI tendem a continuar rendendo acima da inflação. Já carteiras alocadas em prefixados longos ou duration elevada podem sofrer caso o Copom confirme postura conservadora.
Adicionalmente, a possível intensificação do fenômeno El Niño – ou até mesmo um Super El Niño, segundo o Bradesco – ameaça a produção agrícola, com potencial de sustentar a pressão sobre alimentos ao longo do ano. O Daycoval mantém viés de alta em sua projeção de IPCA de 5,1 % para o fim de 2026, incorporando esse risco climático.
Conclusão técnica
A leitura de maio reforça a perda de tração do processo desinflacionário no curto prazo, apesar de sinais pontuais de alívio nos núcleos. A combinação de inflação acima do centro da meta, expectativas negativas e ambiente externo desfavorável sustenta a probabilidade de o Banco Central encerrar, ou pelo menos suspender, o ciclo de cortes na próxima reunião do Copom. Nos meses seguintes, a autoridade monetária deverá adotar decisão “reunião a reunião”, calibrando a política conforme novos dados de preços, atividade e clima, enquanto o mercado ajusta posições para um patamar de juros elevados por período mais prolongado.



