Azzas 2154 contratou o Itaú BBA para mediar negociações que podem culminar na cisão do conglomerado, enquanto o embate judicial entre os acionistas majoritários Alexandre Birman e Roberto Jatahy paralisa sinergias operacionais e acirra a crise de governança iniciada após a retirada da marca Reserva da unidade de negócios cariocas.
Raízes do conflito e evolução das ações judiciais
O atrito tornou-se público quando Birman, CEO oriundo da Arezzo&Co, determinou a saída da Reserva do núcleo de marcas do Rio de Janeiro, historicamente administrado por Jatahy, ex-líder do antigo Grupo Soma. A medida contestada originou uma ação cautelar impetrada por Jatahy, com apoio do escritório Salomão Advogados, para bloquear a reorganização societária.
Nos autos, o grupo de Jatahy alega que a mudança subverteu deliberações do conselho e ameaça desmontar benefícios de integração estimados em cerca de R$ 200 milhões em ganhos de eficiência já capturados desde a fusão firmada em 2024. Em contrapartida, Birman sustenta que o sócio produz “narrativa falsa” e compromete a governança corporativa ao dificultar ajustes estratégicos.
A complexidade da disputa levou ambas as partes a concordar com arbitragem privada. Fontes próximas calculam que a simples definição do corpo arbitral pode consumir meses, prolongando incertezas para investidores e fornecedores.
Papel do Itaú e estrutura prevista para a negociação
Para evitar paralisação completa das operações, o diretor financeiro Eric Alencar formalizou a contratação do Itaú BBA como assessor financeiro da companhia. O banco deverá:
- Elaborar cenários de cisão, preservando ativos e marcas em disputa;
- Coordenar fluxos de informação entre os grupos controladores e seus respectivos consultores independentes;
- Mensurar impactos contábeis sobre Ebitda e alavancagem, caso a separação avance.
Ainda que a presença do banco represente tentativa de neutralidade, interlocutores avaliam que não existe garantia de acordo no curto prazo. Cada acionista mantém assessorias próprias e conduz avaliações paralelas de valuation das marcas Animale, Hering, Reserva, Arezzo e Farm.
Impacto operacional e financeiro da possível cisão
Analistas de mercado calculam que a retirada da Reserva, somada a eventuais reorganizações adicionais, pode reduzir em até R$ 116 milhões o Ebitda potencial projetado originalmente para a unidade Fashion & Lifestyle. No curto prazo, a incerteza pressiona:
Imagem: Internet
- A precificação das ações AZZA3 negociadas na B3, que registraram volatilidade desde o início da controvérsia;
- Os contratos de fornecimento, pois parte das encomendas para a coleção primavera-verão depende de decisões sobre mix de marcas;
- Projetos de expansão omnicanal, uma vez que a integração de estoques e logística seguirá pausada até definição societária.
Além do impacto econômico direto, consultorias especializadas alertam para o risco de perda de talentos. A empresa já enfrentava alta rotatividade no alto escalão; a saída recente de Ruy Kameyama, ex-líder da unidade Fashion & Lifestyle, eliminou uma ponte de diálogo interno que ajudava a equilibrar as visões de Birman e Jatahy.
Perspectivas para arbitragem, governança e mercado
Especialistas em governança corporativa apontam três prováveis desdobramentos:
- Manutenção do status quo até conclusão da arbitragem, prolongando incerteza e afetando o guidance financeiro de 2026 a 2027;
- Cisão negociada, com divisão de marcas e ativos, exigindo reestruturação de dívidas e revisão de covenants bancários;
- Recomposição societária, hipótese menos provável, envolvendo saída de um dos sócios e recompra de participação, o que demandaria financiamento robusto.
Agentes de mercado monitoram ainda o papel de eventuais fundos de private equity interessados em adquirir fatias minoritárias para destravar valor e reduzir o peso da disputa pessoal sobre as decisões estratégicas.
Conclusão técnica
Com a entrada do Itaú BBA, a Azzas 2154 incorpora interlocutor financeiro de peso para avaliar caminhos de cisão ou acomodação societária, mas a efetividade dessa mediação depende da adesão plena de Alexandre Birman e Roberto Jatahy às propostas que emergirem. Enquanto o rito arbitral avança, a companhia enfrenta pressão operacional derivada da suspensão de sinergias e da volatilidade de AZZA3 na bolsa. O mercado aguarda definições que permitam mensurar, de forma objetiva, o impacto definitivo sobre margens, estrutura de capital e continuidade dos projetos de integração de marcas.



