A fórmula de Jorge Paulo Lemann: por que “sonhar grande” demanda o mesmo esforço que projetos menores

O empresário Jorge Paulo Lemann, cofundador da Ambev e terceira maior fortuna do Brasil, consolidou a máxima de que “sonhar grande dá o mesmo trabalho que sonhar pequeno”; a frase, popularizada em 1999 após a criação da Ambev, permanece como referência prática para empreendedores que buscam alavancar resultados sem ampliar proporcionalmente recursos ou horas de trabalho.

Da formação em Harvard ao primeiro grande teste de escala

Nascido no Rio de Janeiro em 1939, Lemann concluiu a graduação em Economia na Universidade de Harvard em 1961. De volta ao Brasil, iniciou carreira no mercado financeiro e, aos 26 anos, tornou-se sócio da corretora Libra. Pouco depois, migrou para o Banco Garantia, instituição que, na década de 1980, viria a liderar operações de private equity inéditas no país.

Em 1982, o Garantia adquiriu 100% das Lojas Americanas por US$ 23 milhões. A reestruturação, conduzida por Lemann e pelos sócios Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles, elevou o Ebitda da varejista em 350% em cinco anos, demonstrando na prática o conceito de escala: grande parte do capital intelectual e dos processos implantados no início continuou a servir durante toda a fase de crescimento, sem demandar esforço proporcionalmente maior.

A consolidação no setor cervejeiro e o ponto de virada global

O salto decisivo ocorreu em 1999, quando a fusão entre Brahma e Antarctica originou a Ambev. Dois marcos confirmam o desempenho resultante do “sonhar grande”:

  • Receita líquida anual saltou de R$ 5,8 bilhões, em 2000, para R$ 15,3 bilhões, em 2004, segundo dados auditados.
  • A margem Ebitda estabilizou-se acima de 40%, patamar raro na indústria global de bebidas.

Com a fusão posterior à belga Interbrew (2004) e, mais tarde, à americana Anheuser-Busch (2008), surgiu a AB InBev, hoje maior cervejaria do mundo, responsável por cerca de 26% da produção global de cerveja. O conglomerado comprovou o raciocínio de custo marginal decrescente: boa parte da estrutura organizacional criada ainda na fase nacional permaneceu válida em operações multirregionais, reduzindo a necessidade de novos centros de decisão.

Métricas financeiras que sustentam a tese “grande ou pequeno, o esforço inicial é similar”

Especialistas em estratégia costumam associar a filosofia de Lemann a três indicadores:

  1. Custo Fixo Inicial (CFI): tempo, capital e competências essenciais são desembolsados antes da escala. Para projetos de magnitude distinta, o CFI tende a variar menos que a percepção intuitiva sugere.
  2. Custo Marginal (CM): concluída a fase de estruturação, cada nova unidade produzida ou vendido requer incremento reduzido de recursos. Na AB InBev, o CM de distribuição caiu cerca de 18% após a integração de redes logísticas na América Latina, conforme relatório anual de 2023.
  3. Retorno sobre Capital Investido (ROIC): ao almejar mercados maiores, o numerador (lucro operacional) cresce mais rapidamente que o denominador (capital), ampliando o ROIC. Na Ambev, o índice permaneceu acima de 20% por duas décadas consecutivas.

Esses dados corroboram a ideia de que, una vez superada a barreira de entrada, escalar o negócio oferece ganhos exponenciais com esforço adicional relativamente contido.

Conexões com o “moonshot thinking” e a atual geração de empreendedores

A filosofia de Lemann dialoga diretamente com o conceito de moonshot thinking, popularizado no Vale do Silício. A premissa estabelece metas 10 × maiores em vez de melhorias lineares de 10%. Programas de aceleração no Brasil, como o Google for Startups, aplicam metodologia semelhante, incentivando fundadores a validar modelos de negócio em mercados grandes desde o início, evitando restrições artificiais de escala.

Estudo da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) mostra que 74% das empresas que captaram rodadas Série A entre 2021 e 2024 nasceram com foco em, no mínimo, dois países latino-americanos, beneficiando-se do compartilhamento de infraestrutura tecnológica e administrativa — justamente o cenário de custo marginal reduzido descrito por Lemann décadas antes.

Conclusão técnica

Os movimentos de Jorge Paulo Lemann, da reestruturação das Lojas Americanas à liderança da AB InBev, fornecem evidências numéricas de que metas ambiciosas não exigem força de trabalho proporcionalmente maior após a fase de implantação. O caso ilustra conceitos econômicos de custo fixo, custo marginal e escala operacional, base para estratégias corporativas que privilegiam mercados extensos desde o estágio inicial. À medida que o ecossistema de inovação brasileiro amadurece, a máxima “sonhar grande dá o mesmo trabalho que sonhar pequeno” tende a permanecer relevante, servindo de referência para projetos que buscam expansão regional ou global sem recrutar recursos em progressão geométrica.