A expectativa de inflação acima de 5% e a valorização do petróleo levaram as principais instituições financeiras a revisar a projeção da taxa Selic para 13,75% ao fim de 2026, reduzindo o espaço para novos cortes de juros no curto prazo.
Revisões sucessivas indicam mudança de rota na política monetária
No início do ano, as estimativas mais recorrentes no mercado apontavam para uma Selic terminal entre 11,5% e 12,5%. Nas últimas quatro semanas, porém, o Relatório Focus passou a registrar alta constante das medianas e já indica 13,25%. Em paralelo, o Itaú Unibanco publicou relatório assinado pelo economista-chefe Mário Mesquita elevando a projeção interna para 13,75%, mantendo o ritmo de cortes em 25 pontos-base por reunião.
Segundo o documento, a autoridade monetária “está sem espaço para aceleração do ciclo” diante da combinação de inflação corrente elevada, expectativas desancoradas e atividade econômica mais resiliente que o previsto. Essa reavaliação contrasta com a trajetória traçada em fevereiro, quando o mesmo banco trabalhava com terminal de 12,25%.
O movimento reflete não apenas a piora nos índices de preços, mas também a percepção de que outros bancos centrais podem voltar a subir juros, estreitando ainda mais a margem de manobra do Comitê de Política Monetária (Copom).
Petróleo e El Niño ampliam pressão sobre preços de energia e alimentos
O prolongamento do conflito no Oriente Médio elevou a cotação do barril e desencadeou efeitos em cadeia. Alta no preço dos combustíveis impacta custos logísticos, produção de embalagens e transporte global de mercadorias, repassando-se gradualmente aos preços livres. O relatório do Itaú ressalta que esse canal indireto “encarece insumos e serviços ao longo das cadeias produtivas, pressionando com defasagem os índices ao consumidor”.
No âmbito doméstico, subsídios federais reduziram parte do impacto imediato sobre gasolina e diesel, mas não anularam a tendência estrutural de alta. Essa dinâmica já se reflete no IPCA: a projeção do banco subiu de 5,2% para 5,4% em 2026. O Focus reporta evolução semelhante, somando 12 semanas consecutivas de revisão para cima, de 3,97% em fevereiro para 5,09% atualmente.
A esse quadro soma-se o risco climático. Caso o fenômeno El Niño se intensifique no segundo semestre, a produção de grãos, especialmente milho, pode sofrer quebras relevantes. A combinação de oferta restrita e demanda firme tende a reforçar a inflação de alimentos, segmento particularmente sensível no índice de preços e na formação de expectativas.
Medidas de estímulo ao crédito sustentam atividade, mas desafiam o Copom
Programas governamentais como o Novo Desenrola, linhas subsidiadas para aquisição de veículos e a redução de filas no INSS injetam recursos na economia. Além disso, transferências de renda já existentes e o mercado de trabalho aquecido — taxa de desemprego ainda em mínimos históricos — mantêm o consumo doméstico robusto.
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O Itaú revisou a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,9% para 2,1%, justificando que o crédito direcionado e a renda em alta sustentam a demanda interna. Entretanto, a mesma resiliência que favorece a expansão econômica impõe dilemas ao Copom: atividade forte reduz o ímpeto desinflacionário e pode exigir postura mais conservadora na condução dos juros.
Em outras economias, o ciclo de aperto monetário segue presente ou foi retomado. Tal movimento limita o grau de liberdade do Banco Central brasileiro, que precisa manter diferencial atrativo para capitais externos a fim de preservar a estabilidade cambial e conter pressões adicionais sobre preços.
Perspectivas para a trajetória da Selic até o fim de 2026
Diante dos novos vetores de risco, o cenário base das instituições financeiras converge para apenas mais três cortes de 0,25 ponto percentual cada, levando a Selic de 14,5% para 13,75% até dezembro. Alguns economistas, contudo, já consideram a hipótese de interrupção prematura do ciclo caso a escalada dos preços persista ou se as expectativas perderem âncora de forma mais intensa.
O Relatório Focus deve continuar refletindo essa visão nas próximas publicações, enquanto indicadores de inflação subjacente — como serviços e núcleo construído — serão monitorados de perto. Qualquer arrefecimento desses componentes, aliado à estabilidade do petróleo, poderia reabrir a discussão sobre cortes adicionais em 2027.
Conclusão Técnica
As revisões de mercado consolidam um quadro em que a taxa Selic tende a encerrar 2026 em torno de 13,75%, nível considerado adequado para enfrentar inflação projetada acima do teto da meta. Pressões oriundas do petróleo, eventuais distorções climáticas sobre alimentos e estímulos fiscais mantêm o Índice de Preços ao Consumidor Amplo acima de 5%. Nesse ambiente, o Banco Central sinaliza espaço limitado para flexibilização monetária, condicionando novos ajustes a evidências claras de desaceleração da atividade e recuo sustentado das expectativas. A depender da evolução desses fatores, o ciclo de cortes pode ser pausado ou revisto, definindo o tom da política monetária brasileira nos próximos trimestres.




