Michelin aposenta a Estrela Verde e lança o projeto Mindful Voices para redefinir a pauta de sustentabilidade na gastronomia

O Guia Michelin confirmou o fim da Estrela Verde, distinção criada em 2020 para reconhecer restaurantes com práticas sustentáveis, e anunciou o programa global Mindful Voices, que ampliará o escopo de premiação para iniciativas ambientais em gastronomia, hospitalidade e vinho a partir de 2027.

Da criação à consagração: cinco anos de Estrela Verde

Lançada em 2020 e atribuída pela primeira vez em 2021, a Estrela Verde nasceu como resposta a críticas de que o tradicional guia promovia um modelo elitista e, por vezes, contraditório em relação à sustentabilidade. Em meia década, mais de 500 restaurantes receberam a distinção em 25 países, segundo dados oficiais do guia.

No Brasil, dois endereços emblemáticos conquistaram visibilidade extra ao unirem excelência culinária e compromissos socioambientais. O Corrutela, em São Paulo, implementou rastreabilidade integral de carnes e peixes, compostagem interna e matriz energética solar. Já o triplo estrelado Tuju criou um instituto de pesquisa focado em biomas nacionais, ampliando o mapeamento de ingredientes nativos.

Apesar desses avanços, o processo de avaliação sempre foi rodeado por ceticismo. Analistas de sustentabilidade questionavam como um inspetor anônimo, em visitas pontuais, conseguiria aferir métricas como pegada de carbono, desperdício zero ou remuneração justa de produtores locais. Essas incertezas mantiveram o selo em constante escrutínio.

Pontos de tensão: critérios, auditoria e pressões de mercado

A principal crítica identificada por observadores independentes concentrava-se na comprovação de práticas ESG. Enquanto certificações externas — como ISO 14001 ou B Corp — exigem auditoria recorrente, a Estrela Verde baseava-se em verificação exclusivamente interna do guia, sem divulgação pública de metodologias. O vácuo de transparência gerou constrangimentos em reportagens internacionais, notadamente no The Guardian, que publicou depoimentos de restaurateurs britânicos decepcionados após a notícia da extinção.

Além da metodologia, fatores econômicos também pesaram. Estudos de consultorias especializadas apontam que selos verdes multiplicam custos operacionais em até 15 %, enquanto apenas 7 % dos consumidores dizem priorizar sustentabilidade na escolha de restaurantes fine dining. O descompasso entre investimento e retorno comercial teria incentivado parte dos estabelecimentos a relativizar compromissos, enfraquecendo a legitimidade do reconhecimento.

Em consonância com essa dinâmica, o Guia Michelin passou a revisar sua estratégia de marca e optou por unificar iniciativas de responsabilidade socioambiental em um único pilar. O comunicado oficial, divulgado em 23 de maio de 2026, confirmou que a Estrela Verde não será concedida no ciclo 2026/2027, abrindo caminho para um formato de avaliação mais abrangente.

Mindful Voices: novo modelo de engajamento e desafios futuros

O programa Mindful Voices, previsto para estrear globalmente em 2027, pretende reconhecer projetos ambientais não apenas na gastronomia, mas também nos segmentos de hotelaria e vinicultura. A plataforma deverá operar em três frentes:

  • Inovação — Incentivo a tecnologias de baixo impacto, como energia renovável em cozinhas industriais e agricultura regenerativa em vinhedos.
  • Educação — Parcerias com escolas de gastronomia para incluir módulos obrigatórios sobre gestão de resíduos e cadeia curta de suprimentos.
  • Transparência — Publicação anual de métricas consolidadas, auditadas por entidades externas, a fim de mitigar críticas sobre falta de clareza nos critérios.

No Brasil, chefes como Renato Mello (Corrutela) e Katherina Cordás (Tuju) avaliam que a transição pode gerar benefícios se o guia cumprir a promessa de padronizar indicadores. Segundo eles, a integração de hospitalidade e vinho tende a facilitar parcerias regionais, reduzindo custos logísticos e ampliando a escala de boas práticas.

Especialistas de mercado concordam que o reposicionamento sinaliza uma tendência de consolidação de selos sustentáveis. Relatório da Allied Market Research projeta que o mercado global de certificações verdes na cadeia de alimentos e bebidas deve crescer 9,8 % ao ano até 2031, atingindo US$ 28,6 bilhões. Nesse contexto, a força da marca Michelin pode acelerar a adoção de padrões unificados, influenciando concorrentes como 50 Best e La Liste.

Conclusão técnica

A decisão de encerrar a Estrela Verde e lançar o Mindful Voices reflete a necessidade de métodos de verificação mais robustos, escaláveis e transparentes diante da evolução das demandas ESG. A movimentação alinha o Guia Michelin a tendências globais de padronização de indicadores ambientais e amplia sua atuação para além do setor de restaurantes. Nos próximos 18 meses, a organização deve detalhar critérios, selecionar parceiros de auditoria e definir calendários regionais. Restaurantes que já investem em sustentabilidade poderão ser beneficiados por um sistema mais claro, enquanto novos entrantes terão parâmetros objetivos para alinhar operações e comunicação.