Mortandade de Peixes no Manguezal do Itacorubi Revela Déficit de Saneamento em Florianópolis

Manguezal do Itacorubi registrou um episódio de morte em massa de peixes em 2024; laudo do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) atribuiu o evento à anoxia causada por floração de algas nocivas, mas a presença de 110 mil NMP/100 mL de Escherichia coli no mesmo ponto de coleta evidencia falhas estruturais de saneamento e expõe riscos crônicos à qualidade da água.

Causa imediata: anoxia associada a floração de algas

O relatório técnico do IMA concluiu que os peixes sucumbiram à anoxia, processo em que o oxigênio dissolvido atinge níveis críticos. O gatilho identificado foi a floração de algas nocivas, favorecida por três fatores:

  • Ressurgência costeira: entrada de águas frias e ricas em nutrientes nas baías Norte e Sul.
  • Baixa circulação hídrica: áreas confinadas do manguezal dificultam a dispersão de nutrientes.
  • Consumo noturno de oxigênio: densidade elevada de microalgas eleva a demanda biológica de O2.

Durante a noite, o acúmulo de organismos fotossintetizantes reverte o balanço entre produção e consumo de oxigênio, levando a concentrações inferiores aos 2 mg/L mínimos para a sobrevivência da ictiofauna local.

Indícios de poluição orgânica e déficit de saneamento

Apesar do foco na dinâmica oceanográfica, o laudo inclui parâmetros de contaminação antrópica. Destacam-se:

  • 110 mil NMP/100 mL de Escherichia coli, índice que supera em centenas de vezes o limite para águas de classe II definido na Resolução Conama 357.
  • Detecção de DBO, DQO, nitrogênio total e fósforo em valores que sugerem aporte de matéria orgânica não tratada.

Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), Santa Catarina trata apenas 31,8 % do esgoto gerado. Em Florianópolis, parte dos efluentes é lançada em canais que convergem para o manguezal, onde a residência hídrica prolongada favorece a concentração de nutrientes e organismos patogênicos.

Contexto urbano e pressões sobre o segundo maior manguezal urbano do país

Localizado em área densamente habitada, o Manguezal do Itacorubi cobre aproximadamente 377 hectares e funciona como berçário natural, filtro biogeoquímico e barreira contra a erosão costeira. Entretanto, vem enfrentando:

  1. Ocupações irregulares que reduzem a cobertura vegetal e direcionam águas pluviais contaminadas para setores internos do ecossistema.
  2. Infraestrutura de drenagem deficiente, com ligações clandestinas de esgoto doméstico a galerias pluviais.
  3. Fiscalização intermitente; em 2024, portaria da Floram chegou a suspender novos atos fiscalizatórios por 60 dias, medida revogada após repercussão negativa.

Especialistas como o engenheiro sanitarista Yuli Mello Dugaich apontam que a ênfase exclusiva na ressurgência costeira minimiza o papel histórico da urbanização desordenada, fator que acumula carga orgânica e agrava episódios de blooms algais.

Monitoramento e lacunas de dados ambientais

O próprio relatório do IMA admite ausência de séries temporais robustas para dissociar aportes naturais de nutrientes daqueles oriundos de esgoto. Falta:

  • Medição contínua de coliformes fecais, fósforo reativo e nitrogênio amoniacal.
  • Modelagem hidrodinâmica para estimar tempo de residência da água e influência urbanística.
  • Programa de avaliação sazonal de chlorophyll-a e biomassa microalgal.

Sem esses dados, episódios de mortandade tendem a ser interpretados de forma fragmentada, dificultando ações corretivas estruturais.

Conclusão técnica e próximos passos

A mortandade de peixes no Manguezal do Itacorubi decorreu de anoxia induzida por floração algal, fenômeno catalisado por fatores oceanográficos e pela baixa circulação interna do manguezal. Contudo, indicadores de contaminação fecal e a taxa estadual de 31,8 % de esgoto tratado confirmam que deficiências de saneamento contribuem para criar um ambiente propício a eventos críticos de qualidade da água. Recomenda-se:

  • Implementar monitoramento contínuo de parâmetros físico-químicos e microbiológicos.
  • Ampliar a cobertura de coleta e tratamento de esgoto nos bairros adjacentes.
  • Retomar e fortalecer fiscalização ambiental permanente para coibir ligações clandestinas e ocupações irregulares.
  • Elaborar plano de gestão integrada que inclua modelagem hidrológica, restauração de áreas degradadas e educação ambiental comunitária.

Sem a correção estrutural do saneamento e a adoção de monitoramento sistemático, o manguezal permanece vulnerável a novos episódios de mortandade e perda de biodiversidade, comprometendo funções ecológicas essenciais para Florianópolis.