Taxa Selic acima de 10% continua a refletir problemas fiscais, concentração bancária e riscos jurídicos, segundo avaliação do economista Jeferson Bittencourt, ex-secretário do Tesouro Nacional, em análise divulgada nesta quarta-feira (27).
Raízes internas: concentração bancária e ambiente jurídico
De acordo com Jeferson Bittencourt, a elevada concentração do sistema bancário brasileiro cria um cenário em que poucas instituições dominam a oferta de crédito. Ainda que fintechs e bancos digitais tenham ampliado sua presença nos últimos anos, cinco grandes bancos controlam mais de 80 % dos ativos do setor. Esse formato reduz a competição pelas melhores taxas e, na prática, sustenta spreads maiores que os verificados em economias comparáveis.
O economista também aponta o ambiente jurídico como componente decisivo. Segundo Bittencourt, a tendência de decisões judiciais favoráveis ao devedor leva credores a adicionar um prêmio de risco significativo nas operações. Quando um litígio se estende por anos e o resultado final costuma penalizar quem emprestou, as instituições financeiras repassam o custo da incerteza a todos os tomadores de crédito. Esse mecanismo impede a queda consistente da Selic, pois a autoridade monetária precisa calibrar a taxa básica para compensar a percepção de risco sistêmico.
Outro fator doméstico destacado é a escassez de recursos disponíveis para crédito. Com baixo índice de poupança interna — historicamente próximo a 15 % do PIB, ante níveis acima de 25 % em nações emergentes da Ásia —, o sistema bancário brasileiro opera com funding mais restrito, o que pressiona a remuneração exigida pelos aplicadores.
Desequilíbrio fiscal e dívida pública no centro do debate
A trajetória da dívida bruta do governo geral, hoje em torno de 78 % do PIB, permanece um dos principais determinantes para a manutenção dos juros em dois dígitos. Conforme a análise, a percepção de que o ajuste das contas públicas avança de forma lenta — agravada por despesas obrigatórias com previdência e folha salarial — força o mercado a incorporar prêmios mais altos no horizonte de médio e longo prazos.
Bittencourt ressalta que gastos obrigatórios respondem por quase 95 % do orçamento primário, reduzindo a flexibilidade do Executivo em momentos de menor arrecadação. Essa rigidez aumenta a vulnerabilidade fiscal diante de choques externos ou desaceleração doméstica, pressionando a autoridade monetária a atuar com taxa de juros real elevada para ancorar expectativas de inflação.
Fatores externos: guerra no Oriente Médio e juros norte-americanos
O cenário internacional também pesa sobre a condução da política monetária brasileira. A guerra no Irã, iniciada em 2025, elevou o preço do barril de petróleo e reacendeu temores de repasse inflacionário global. Paralelamente, o Federal Reserve mantém a taxa dos Fed Funds acima de 5 % ao ano — patamar mais alto desde 2006 —, provocando fuga de capitais de mercados emergentes para os Treasuries dos Estados Unidos.
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Nesse ambiente, o Banco Central do Brasil opta por um ciclo de cortes graduais de 0,25 ponto percentual por reunião, estratégia descrita pelo economista como “conta-gotas”. A cautela busca evitar movimentos abruptos que fragilizem o câmbio ou desancorem as expectativas inflacionárias. Em 2024, quando os conflitos ainda não haviam escalado, o consenso de mercado projetava reduções semestrais de 0,50 p.p.; atualmente, as estimativas apontam Selic superior a 9 % até o fim de 2027.
Reformas estruturais e perspectivas para a trajetória dos juros
Para viabilizar juros significativamente menores, Bittencourt defende a implementação de reformas que atinjam o núcleo do gasto público, sobretudo a revisão de benefícios previdenciários e o redesenho do arcabouço remuneratório do funcionalismo. Sem essas medidas, a dívida continuará crescendo acima do PIB potencial, perpetuando prêmios de risco elevados.
Além das mudanças fiscais, o economista sugere fortalecer o ambiente jurídico para credores e incentivar maior concorrência no sistema bancário — via simplificação regulatória para novos entrantes e ampliação da portabilidade de crédito. A combinação de arcabouço fiscal sólido e mercado de crédito mais competitivo tende a reduzir o custo de oportunidade exigido pelo capital, permitindo que a Selic converja a padrões internacionais no longo prazo.
Conclusão técnica
A persistência da Selic em dois dígitos resulta da interação entre desequilíbrio fiscal, concentração bancária, risco jurídico e incerteza externa. Enquanto reformas para conter gastos obrigatórios não avançarem e o ambiente de crédito permanecer restritivo, a autoridade monetária continuará limitada a cortes graduais. Projeções atuais indicam trajetória de queda lenta até 2027, condicionada à disciplina fiscal e à estabilização do cenário geopolítico.



