Dois óbitos consecutivos por hantavírus confirmados no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais, registrados entre fevereiro e março de 2026, ampliaram o monitoramento sanitário em três estados brasileiros, ainda que não exista vínculo com o surto investigado pela OMS a bordo do navio MV Hondius, que partiu da Argentina com destino a Cabo Verde. As autoridades estaduais reforçam medidas de vigilância em áreas rurais, onde o contato com roedores silvestres continua a ser o principal fator de risco.
Situação epidemiológica: registros recentes e distribuição geográfica
O governo gaúcho comunicou, em 12 de março de 2026, dois casos de hantavirose em localidades distintas: Antônio Prado e Paulo Bento. Em Paulo Bento, o paciente evoluiu a óbito, configurando a segunda morte no país confirmada este ano. No mês anterior, em 23 de fevereiro, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais relatou o falecimento de um agricultor de 46 anos no município de Montes Claros, após exposição a roedores em uma lavoura de milho.
Além de Rio Grande do Sul e Minas Gerais, o Paraná monitora casos suspeitos desde o início de março. Até o momento, não há indícios de transmissão em áreas urbanas nem confirmação de cadeia sustentada pessoa a pessoa em território nacional.
Autoridades federais reforçam que, embora o número absoluto permaneça baixo, a letalidade média da hantavirose — historicamente superior a 30% no Brasil — exige resposta rápida em coleta de amostras, diagnóstico laboratorial e assistência intensiva aos pacientes.
Características do hantavírus: ciclo de transmissão e manifestação clínica
O hantavírus pertence à família Hantaviridae e circula entre roedores silvestres, principalmente das espécies Oligoryzomys e Calomys. A infecção humana ocorre por inalação de aerossóis formados a partir de urina, fezes ou saliva desses animais, sobretudo em depósitos, celeiros ou residências rurais pouco ventiladas.
Os primeiros sintomas incluem febre, mialgia, cefaleia, náusea e fadiga intensa. Em estágio avançado, podem surgir dispneia, edema pulmonar não cardiogênico, hipotensão e choque circulatório, quadro denominado Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus. O intervalo médio entre exposição e início dos sintomas varia de 7 a 42 dias.
Não existe vacina aprovada nem antiviral de eficácia comprovada. O tratamento concentra-se em suporte ventilatório, equilíbrio hidroeletrolítico e monitoramento hemodinâmico em unidade de terapia intensiva.
Resposta institucional e protocolos de prevenção
Após a confirmação dos óbitos, as secretarias estaduais de Saúde intensificaram a capacitação de equipes da atenção primária para notificação imediata e coleta de amostras sanguíneas. O Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) de cada estado mantém painéis sorológicos para detecção de anticorpos IgM e IgG, complementados por RT-PCR em tempo real para confirmação genômica.
Imagem: Wikimédia e Canva
Entre as recomendações preventivas, destacam-se:
- Usar máscara PFF2 e luvas descartáveis durante a limpeza de depósitos, galpões ou silos.
- Umedecer superfícies com solução desinfetante antes de varrer, evitando a suspensão de partículas.
- Armazenar grãos e ração em recipientes herméticos para reduzir a oferta de alimento aos roedores.
- Manter quintais sem entulho e eliminar fontes de água parada que possam atrair animais.
Em áreas de ocorrência confirmada, agentes de vigilância ambiental realizam captura de roedores para análise virológica e orientação às comunidades rurais acerca do manejo adequado de resíduos.
Surto no cruzeiro MV Hondius: investigação internacional
Enquanto o Brasil monitora eventos pontuais, a Organização Mundial da Saúde conduz inquérito epidemiológico sobre um possível cluster de hantavirose no navio de bandeira holandesa MV Hondius, que partiu de Ushuaia, Argentina, em janeiro de 2026. Informações preliminares apontam oito passageiros com sintomas respiratórios compatíveis, levantando a hipótese de transmissão a bordo, cenário inédito para a doença.
Até o fechamento desta edição, amostras biológicas coletadas durante escala no porto de Mindelo, Cabo Verde, aguardavam resultado de RT-PCR em laboratório de nível de biossegurança 3. A agência sanitária argentina não identificou correspondência genética com cepas circulantes no Cone Sul, sugerindo possível introdução de linhagem oriunda da Antártida, visitada pelo cruzeiro.
As autoridades brasileiras descartaram qualquer conexão direta entre os casos domésticos e o episódio marítimo, mas acompanham a investigação por meio do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS).
Conclusão técnica
O aumento pontual de ocorrências de hantavírus em 2026 reforça a necessidade de vigilância contínua em áreas rurais e a adoção imediata de medidas de biossegurança durante atividades que expõem trabalhadores a roedores silvestres. Embora os eventos no Brasil não apresentem correlação com o surto sob análise internacional, o histórico de alta letalidade da doença exige resposta coordenada entre secretarias estaduais, Ministério da Saúde e instituições laboratoriais de referência. A curto prazo, são esperados relatórios genômicos que esclarecerão eventuais variantes em circulação, enquanto campanhas de orientação comunitária deverão ser intensificadas antes do próximo período de colheita de grãos, quando aumenta o risco de contato humano-roedor.



