A execução da transferência da capital indonésia de Jacarta para Nusantara, projeto estimado em US$ 33 bilhões e previsto para 2030, entrou em fase crítica após cortes drásticos no orçamento e questionamentos legais que ameaçam transformar a futura cidade em um canteiro de obras inacabado.
Motivações: colapso urbano em Jacarta e a busca por estabilidade administrativa
Jacarta, núcleo metropolitano que abriga cerca de 42 milhões de habitantes, enfrenta sobrecarga estrutural e riscos geológicos que justificaram a proposta de mudança. Estudos oficiais apontam:
- Afundamento anual superior a 7 centímetros em bairros densamente povoados.
- Dependência de água subterrânea: 60 % da população recorre a poços artesianos.
- Frequentes enchentes associadas ao avanço do mar e à impermeabilização do solo.
Ao transferir a sede do governo para Nusantara, situada na ilha de Bornéu, o Executivo pretendia aliviar a pressão sobre Java — ilha que concentra mais da metade dos 279 milhões de habitantes do país — e redistribuir investimentos para regiões menos desenvolvidas.
Cronologia: do lançamento ambicioso ao corte de verbas
2019 – 2021: o então presidente Joko Widodo lançou o plano de construção da cidade planejada, estabelecendo metas para erguer edifícios governamentais, infraestrutura viária, um aeroporto e zonas residenciais até 2030.
2022 – 2023: as obras ganharam ritmo; sedes de ministérios, unidades bancárias e parques foram levantados. Relatórios oficiais relataram execução orçamentária anual acima de US$ 5 bilhões.
Outubro de 2024: a posse de Prabowo Subianto alterou o escopo. O novo líder classificou Nusantara como “capital política” a partir de 2028, categoria inexistente na legislação indonésia. A mudança originou disputas parlamentares sobre competência, resultando em paralisações contratuais.
2025 – 2026: o financiamento público recuou para US$ 400 milhões anuais; investidores privados suspenderam aportes, enquanto organizações ambientais passaram a exigir avaliações de impacto mais rígidas.
Obstáculos ambientais e sociais: impactos sobre a ilha de Bornéu
Nusantara ocupa área anteriormente coberta por floresta tropical. Monitoramentos do Ministério do Meio Ambiente indicam o desmatamento de mais de 2 mil hectares de manguezais desde 2024. Comunidades indígenas Balik relatam:
Imagem: Internet
- Destruição de plantações tradicionais e locais de culto.
- Restrição de acesso a cursos d’água e recursos pesqueiros.
- Risco a espécies ameaçadas, como o orangotango-de-bornéu (Pongo pygmaeus).
O governo assegura que 75 % dos 1 000 hectares do entorno urbano permanecerão preservados, compromisso contestado por ONGs internacionais devido à ausência de auditorias independentes.
Comparativo internacional: capitais planejadas e lições aprendidas
Precedentes como Brasília (1960), Canberra (1927) e Washington, D.C. (1800) demonstram que projetos de transferência administrativa exigem:
- Base legal inequívoca que defina atribuições políticas e orçamentárias.
- Financiamento previsível de longo prazo, preferencialmente multianual.
- Mitigação socioambiental respaldada em consultas públicas e compensações claras.
No caso indonésio, a indefinição jurídica sobre o status de “capital política” e a redução dos recursos colocam em dúvida a repetição de trajetórias bem-sucedidas observadas em outros países.
Perspectivas financeiras: de megaprojeto a risco de cidade fantasma
Com o corte de investimentos, analistas de instituições multilaterais classificam Nusantara como empreendimento “em observação”. Os principais pontos de alerta são:
- Liquidez: falta de garantias federais tornou títulos ligados ao projeto menos atrativos.
- Demanda populacional: projeção inicial de 1,2 milhão de moradores foi revista para 350 mil até 2035, reduzindo a base fiscal futura.
- Custo de manutenção: estimativas internas apontam despesas anuais superiores a US$ 600 milhões apenas para conservar infraestruturas já instaladas.
Conclusão Técnica
A construção de Nusantara avança em ritmo inferior ao planejado e depende da aprovação de arcabouço legal que consolide seu status administrativo. A alocação orçamentária para 2027 será decisiva: sem recomposição de verbas públicas ou retomada de parcerias privadas, o empreendimento corre o risco de estagnação prolongada. O Executivo mantém a meta de instalar o presidente e os poderes Legislativo e Judiciário na nova capital em 2028; contudo, a continuidade do afundamento de Jacarta e a pressão ambiental sobre Bornéu exigem soluções simultâneas para evitar a configuração de dois problemas urbanos em vez de um.



