Laudos toxicológicos confirmaram que o empresário Pedro Rodrigues Alves, de 54 anos, proprietário de uma funerária em Videira (SC), foi morto por envenenamento em 15 de fevereiro de 2024; a Polícia Civil concluiu o inquérito e prendeu preventivamente a esposa e o suposto amante como principais suspeitos, apontando motivação patrimonial e relacionamento extraconjugal.
Investigações médicas e perícias toxicológicas
O caso teve início em 5 de fevereiro, quando Pedro Rodrigues Alves deu entrada em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Divino Salvador, em Videira. A equipe médica registrou falência multiorgânica progressiva, sem resposta aos protocolos clínicos usuais. Diante da ausência de melhora, médicos solicitaram um exame toxicológico abrangente. O resultado, divulgado em 13 de fevereiro, indicou intoxicação exógena por compostos da classe carbamato ou organofosforado.
Com a confirmação laboratorial, a Polícia Civil, por meio da Delegacia de Investigação Criminal de Videira, pediu autorização judicial para exames cadavéricos complementares e para a quebra de sigilo de dados telefônicos e telemáticos dos envolvidos. O delegado Édipo Flamia Hellt relatou que perícias subsequentes identificaram vestígios de metanol no conteúdo gástrico e traços de “chumbinho” — agrotóxico proibido no país — em amostras de tecido hepático. Tais evidências corroboraram a tese de envenenamento continuado, aplicado em doses fracionadas.
Dinâmica criminosa, substâncias empregadas e motivação
A análise de mensagens, registros de localização e transações financeiras indicou que a esposa da vítima mantinha um relacionamento extraconjugal com o suspeito havia mais de um ano. Segundo o inquérito, o casal investigado teria iniciado o planejamento da morte em janeiro de 2023. Os atos descritos incluem:
- Adição de metanol à cerveja consumida rotineiramente por Pedro.
- Substituição de cápsulas de medicamento de uso contínuo por comprimidos contendo soda cáustica.
- Administração intermitente de raticida à base de carbamato, comercializado ilegalmente como chumbinho.
Motivo torpe e patrimonial: De acordo com o delegado, os dois pretendiam herdar integralmente o patrimônio da vítima, estimado em valores superiores a R$ 3 milhões, e passar a viver juntos sem levantar suspeitas. Conversas extraídas dos aparelhos indicam que os envolvidos buscavam construir uma narrativa de morte natural, atribuindo o agravamento clínico a problemas cardíacos preexistentes.
Outro elemento apontado pela investigação foi o pagamento de R$ 10 mil a um profissional de enfermagem da UTI para o fornecimento de boletins médicos detalhados em tempo real. Essa ação possibilitou ajustes nas doses tóxicas aplicadas, prolongando o quadro clínico até que o laudo sugerisse causa natural.
Prisão preventiva e enquadramentos legais
Com base nos indícios colhidos, a Justiça de Santa Catarina expediu mandados de prisão preventiva contra a esposa e o suposto amante. Ambos foram detidos em 17 de abril de 2024 e transferidos para unidades prisionais distintas, a fim de evitar comunicação entre si. O Ministério Público tipificou o caso como homicídio doloso qualificado por:
Imagem: Reprodução
- Motivo torpe — ganho financeiro e liberdade para manter o relacionamento adulterino.
- Emprego de veneno — uso reiterado de substâncias tóxicas de venda proibida.
- Meio insidioso e cruel — método que impossibilitou defesa da vítima.
As penas combinadas podem ultrapassar 30 anos de reclusão. A defesa dos investigados tenta invalidar parte das provas obtidas via quebra de sigilo, alegando suposta irregularidade processual, mas até o momento o Tribunal de Justiça manteve a legalidade dos atos investigativos.
Repercussão regional e histórico da vítima
Pedro Rodrigues Alves era conhecido por gerir a Funerária Rodrigues Alves, empresa fundada há mais de três décadas. Entidades de classe, como o Sindicato dos Serviços Funerários de Santa Catarina, divulgaram nota lamentando o desfecho. Comerciantes locais relataram que a vítima costumava apoiar financeiramente projetos culturais e esportivos no município de Videira, reforçando laços comunitários.
O caso ganhou destaque estadual pela raridade de homicídios mediante envenenamento prolongado e pela sofisticação do modus operandi. Especialistas em toxicologia consultados pela Polícia Civil ressaltaram que compostos organofosforados atuam inibindo irreversivelmente a enzima acetilcolinesterase, levando a disfunções neurológicas, respiratórias e circulatórias, quadro compatível com o observado nos prontuários hospitalares.
Conclusão técnica
A conclusão do inquérito atesta que Pedro Rodrigues Alves sucumbiu a um esquema de envenenamento planejado pela própria esposa em conluio com o amante, motivado por interesses financeiros e pessoais. Com a prisão preventiva decretada e a denúncia formalizada, o processo segue para a fase de instrução, quando serão ouvidas testemunhas e peritos criminais. O julgamento deve ocorrer ainda em 2024, podendo resultar em pena máxima se confirmadas as qualificadoras. Paralelamente, a Polícia Civil mantém diligências para localizar eventuais fornecedores das substâncias tóxicas, o que pode originar novos indiciamentos por comércio ilegal de agrotóxicos proibidos.



