Queda de 20% posiciona Sabesp como oportunidade rara, indica UBS BB

A correção de aproximadamente 20% no valor de mercado da Sabesp desde abril levou o UBS BB a revisar sua recomendação para as ações SBSP3 de neutra para compra, fixando preço-alvo em R$ 38 — potencial de valorização estimado em 36%, segundo relatório divulgado nesta terça-feira (16).

Reação do mercado e mudança de visão do UBS BB

O movimento de queda das ações foi atribuído majoritariamente à saída de investidores estrangeiros da B3. Entre abril e meados de junho, o fluxo negativo superou R$ 20 bilhões, afetando diversos papéis de infraestrutura. No caso da Sabesp, o descolamento entre fundamentos operacionais e precificação chamou a atenção do banco.

Os analistas apontam que a companhia mantém trajetória de expansão robusta, com ganhos de eficiência registrados no primeiro semestre e margens em linha com o planejado. Essa combinação reforçou a avaliação de que o desconto aplicado pelo mercado é “excessivo” frente aos indicadores operacionais.

Com base nessa leitura, o UBS BB calcula que o múltiplo EV/RAB de 0,98 vez praticado hoje deveria convergir para ao menos 1,24 vez no curto a médio prazo, caso premissas de investimento e execução sejam confirmadas.

Vetores de crescimento pós-privatização

A privatização concluída em 2024 viabilizou um plano de capex sem precedentes. O volume de investimentos, que era de cerca de R$ 6 bilhões anuais antes da abertura de capital, foi projetado inicialmente para R$ 20 bilhões em 2026. A última revisão do UBS BB reduziu a estimativa para R$ 19 bilhões, ajuste considerado técnico diante da simultaneidade de obras.

Mesmo com a leve revisão, o banco prevê salto expressivo da base de ativos regulatórios (RAB) de R$ 88 bilhões em 2024 para R$ 178 bilhões em 2029. Esse avanço sustentaria crescimento composto anual de 18% no Ebitda entre 2025 e 2030, impulsionado por três fatores estruturais:

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  • WACC Gap — diferença entre custo de capital regulatório e custo efetivo, potencializada por investimentos acima da depreciação.
  • Opex Gap — nível de eficiência operacional superior ao parâmetro reconhecido pelo regulador.
  • Tax Gap — alíquota efetiva menor, amparada pelo uso de instrumentos como Juros sobre Capital Próprio.

Além disso, a administração pretende antecipar para 2029 a universalização dos serviços de saneamento no Estado de São Paulo, quatro anos antes do prazo federal de 2033. O objetivo serve como catalisador de novos contratos e reforça a tese de expansão contínua da receita.

Riscos monitorados e sensibilidade da tese

O principal desafio segue na execução do plano de investimentos. A companhia precisa sustentar desembolsos próximos de R$ 5 bilhões por trimestre sem comprometer alavancagem financeira. A gestão indicou teto de 3,0 vezes dívida líquida/Ebitda como limite prudencial.

No front político, discussões sobre possível reestatização retornaram ao debate com a aproximação do calendário eleitoral estadual. O UBS BB considera a reversão “extremamente improvável” em razão de três barreiras: contratos de concessão já firmados, necessidade de aprovação legislativa para qualquer alteração societária e custo bilionário de recompra de ações dos investidores privados.

Fatores climáticos, como ciclos prolongados de estiagem, constituem outra variável observada. Reservatórios abaixo da média podem pressionar fluxo de caixa e postergar parte dos investimentos. Por fim, o ambiente de juros permanece relevante; elevação do custo de capital acima das premissas regulatórias poderia reduzir a atratividade do plano.

Conclusão técnica

A desvalorização recente de SBSP3 criou, na visão do UBS BB, uma janela de entrada sustentada por fundamentos robustos, aceleração de capex e avanço consolidado na eficiência operacional. A materialização dos gatilhos — retorno do investidor estrangeiro, execução disciplinada das obras e mitigação do ruído político — tende a reaproximar a cotação do nível considerado justo pelo banco (R$ 38). Riscos de execução, condições climáticas adversas e volatilidade macroeconômica seguem no radar, mas, no cenário-base do relatório, o balanço entre risco e retorno permanece favorável a novas posições na companhia.