Relatório do Bank of America indica que a transição para o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) deve elevar os preços líquidos da cerveja da Ambev (ABEV3) em até 10 % até 2033, porém qualquer alíquota do futuro Imposto Seletivo (IS) acima de 7 % tende a anular totalmente esse benefício, pressionando a rentabilidade a partir de 2027.
Redução de distorções com o IVA
A análise do BofA parte do diagnóstico de que o atual sistema, baseado no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), gera diferenças significativas de carga tributária entre estados e incentiva disputas fiscais. A implementação gradual do IVA, prevista para terminar em 2033, deve equalizar alíquotas e simplificar a apuração de créditos, reduzindo custos operacionais.
Nos cálculos do banco, esse movimento pode elevar o preço líquido de venda da cerveja em cerca de 5 % nos primeiros anos de transição e chegar a 10 % no encerramento do cronograma. O impulso decorre do repasse menor de créditos acumulados e da eliminação de cascatas tributárias que hoje comprimem margens na operação brasileira da fabricante.
Ainda segundo o relatório, a unidade de cervejas no Brasil respondeu por 56 % do ebitda consolidado da companhia em 2025, o que reforça a relevância do mercado doméstico no resultado global.
Imposto Seletivo: ponto de inflexão para as margens
O mesmo texto ressalta, contudo, que a criação do Imposto Seletivo sobre bebidas alcoólicas pode inverter o quadro. O projeto de regulamentação ainda não detalhou alíquotas, mas simulações do BofA mostram que um IS superior a 7 % já neutralizaria integralmente as vantagens trazidas pelo IVA.
Experiências internacionais sustentam a cautela. No México e no Chile, tributos específicos sobre bebidas geraram cargas efetivas equivalentes a 10 %–18 % dos preços líquidos. Caso proporção semelhante seja aplicada no Brasil, a Ambev teria de adotar reajustes expressivos para defender margens, cenário que pode encontrar resistência do consumidor.
Para cada acréscimo de 5 p.p. na alíquota do IS, a projeção de ebitda da divisão brasileira de cervejas em 2027 cairia 4,2 %, segundo a modelagem utilizada pelos analistas.
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Elasticidade da demanda e limite para repasses
O relatório considera uma elasticidade-preço da demanda de 0,5, indicando que um aumento de 1 % no preço pode provocar retração de 0,5 % no volume vendido. Se a companhia conseguir repassar apenas metade do impacto tributário – cenário já visto em 2025, quando o setor recuou 4 % em volume apesar de reajustes alinhados à inflação – o ebitda da operação de cervejas pode retroceder 17 % em 2027. No consolidado, a queda seria de 8,6 %.
Os analistas observam que a estratégia de preços enfrenta, adicionalmente, um ambiente de consumo pressionado. O Brasil registrou crescimento modesto de renda real e concorrência intensificada de marcas regionais, fatores que limitam a capacidade de repasse integral de nova tributação.
Valuation, recomendação e sinalização ao investidor
Mesmo com os riscos, o BofA mantém recomendação neutra para ABEV3, fixando preço-alvo em R$ 16,00. Na sessão de 2 de junho de 2026, o papel encerrou a B3 cotado a R$ 16,45, o que implica potencial de desvalorização de 2,75 %. O banco ressalta que a ação negocia a 17,1 x o lucro estimado para 2027, patamar alinhado à controladora AB InBev. Historicamente, a subsidiária brasileira era precificada com desconto aproximado de 23 %, evidenciando que o mercado pode não ter precificado totalmente o efeito do novo imposto.
No curto prazo, a instituição vê fatores de sustentação: ganhos de participação de mercado e base de comparação mais favorável nos próximos trimestres. Apesar disso, projeta lucro por ação 11 % abaixo do consenso em virtude da incerteza regulatória.
Conclusão Técnica
A transição para o IVA tende a corrigir distorções fiscais e a fortalecer o fluxo de caixa da Ambev até 2033, mas a introdução do Imposto Seletivo figura como variável-chave para a rentabilidade pós-2027. Alíquotas superiores a 7 % podem eliminar o ganho estimado, exigindo reajustes de preço potencialmente incompatíveis com a elasticidade do mercado de cervejas. O monitoramento da regulamentação, previsto para os próximos meses, será decisivo para recalibrar projeções de ebitda, fluxo de caixa e múltiplos de mercado da companhia.




