Lula afirmou ao The Washington Post que o diálogo recente com Donald Trump pode destravar investimentos estrangeiros, conter novas tarifas norte-americanas e fortalecer o respeito à democracia brasileira, após reunião realizada duas semanas atrás em Washington.
Aproximação estratégica após tensão comercial
O encontro bilateral, ocorrido no início de maio de 2026, representou uma reviravolta na agenda econômica Brasil-Estados Unidos. Há apenas um ano, o governo norte-americano havia imposto diversas tarifas sobre importações brasileiras, medida que ampliou o déficit comercial brasileiro em US$ 4,7 bilhões no segundo semestre de 2025, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior. Durante a entrevista, Lula lembrou que a retaliação partiu em meio à condenação judicial do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe. Agora, o presidente brasileiro classificou o diálogo com Trump como “base para reconstruir a confiança”.
No encontro, Lula relatou ter usado a diplomacia direta para dissipar atritos: “Se eu consegui fazer Trump dar risada, consigo alcançar outras coisas também”. A frase evidencia a estratégia de despersonalizar divergências ideológicas e concentrar-se em resultados práticos, tema recorrente na política externa do atual governo.
Investimentos estrangeiros e barreiras tarifárias em pauta
Segundo o Ministério da Fazenda, projetos industriais e de infraestrutura avaliados em aproximadamente US$ 12 bilhões encontram-se na mesa de negociações com grupos dos Estados Unidos. A pasta avalia que até 45 mil novos postos de trabalho podem ser criados caso os acordos avancem. Entre os setores prioritários destacam-se:
- Transição energética, com ênfase em parques eólicos offshore.
- Semicondutores, área sensível na disputa tecnológica global.
- Agronegócio, foco na ampliação de cotas de etanol e proteína animal.
Quanto às tarifas, técnicos da Câmara de Comércio Exterior afirmam que a Casa Branca estuda suspender a sobretaxa de 25 % sobre o aço brasileiro, em vigor desde 2025. A medida reduziria custos logísticos estimados em US$ 380 milhões ao ano para siderúrgicas instaladas em Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Diferenças políticas não impedem cooperação
Lula sublinhou discordâncias com a política externa norte-americana, citando a guerra contra o Irã, a intervenção na Venezuela e o conflito em Gaza. Mesmo assim, reforçou que “desacordos políticos não interferem na relação entre chefes de Estado”. Analistas do Wilson Center veem na declaração um esforço para blindar a agenda econômica de temas geopolíticos sensíveis.
Entre 2003 e 2010, primeiros mandatos de Lula, o fluxo de investimento direto norte-americano no Brasil cresceu 74 %, de acordo com o Bureau of Economic Analysis (BEA). Especialistas avaliam que o histórico colabora para a retomada atual. “Há memória institucional positiva que pode ser reativada”, observa a professora Carla Duarte, da Fundação Getulio Vargas.
Imagem: Internet
Contexto histórico e comparação com Bolsonaro
Donald Trump manteve relação próxima com Jair Bolsonaro durante suas gestões paralelas (2019-2021). Contudo, o cenário mudou após a condenação do ex-presidente brasileiro por tentativa de golpe. Na entrevista, Lula destacou não exigir que Trump “não goste de Bolsonaro”, mas reiterou: “Ele já sabe que sou melhor”. A fala busca distanciar a atual administração de narrativas antidemocráticas e reforçar legitimidade internacional.
Em 8 de março de 2026, logo após a reunião bilateral, Lula declarou à Agência Brasil que, aos 80 anos, ambos os líderes “não têm tempo a perder”. A menção à idade reforça o senso de urgência nas tratativas comerciais e acena a investidores em busca de previsibilidade.
Próximos passos na agenda bilateral
Fontes do Itamaraty preveem missão técnica a Washington até o final de junho de 2026 para detalhar contrapartidas fiscais e ambientais dos projetos anunciados. Em paralelo, o Departamento de Comércio dos EUA deve enviar representantes a Brasília para discutir mecanismos de verificação de origem que atendam às exigências do Inflation Reduction Act.
O cronograma inclui ainda reunião do Fórum de CEOs Brasil-EUA em setembro, quando serão apresentados relatórios de due diligence sobre as propostas de investimento.
Conclusão técnica
A reaproximação entre Lula e Donald Trump abre janela para reduzir barreiras tarifárias e atrair capital estrangeiro em setores estratégicos. A continuidade do diálogo dependerá da execução de missões técnicas e da disposição da Casa Branca em revisar sobretaxas impostas em 2025. Caso os cronogramas sejam cumpridos, o Brasil pode registrar incremento relevante no estoque de Investimento Direto Estrangeiro já no segundo semestre de 2026, com reflexos diretos sobre a balança comercial e a geração de empregos qualificados.




