Analistas do Itaú BBA estimam que a Sabesp (SBSP3) poderá elevar o dividend yield de 2,5 % em 2025 para 7,8 % em 2029, impulsionada pela forte geração de caixa que deve suceder o atual ciclo de investimentos para universalização do saneamento em São Paulo.
Preço-alvo revisado e lógica de transformação financeira
O relatório do Itaú BBA manteve recomendação de compra para as ações da companhia e elevou o preço-alvo para R$ 34, o que implica potencial de valorização aproximado de 20 % frente ao fechamento de 27 de maio de 2026. Segundo os analistas Fillipe Andrade e Lucas Guimarães, a principal mudança de paradigma não decorre apenas do crescimento da Base Regulatória de Ativos (RAB), mas da transição do balanço patrimonial para uma plataforma “ofensiva” de alocação de capital.
A visão do banco contrasta com a percepção corrente do mercado, ainda focada em riscos regulatórios, distribuição de dividendos de curto prazo e múltiplos EV/RAB. Na avaliação dos especialistas, à medida que o capex diminuir no final da década, a Sabesp poderá converter a maior parte do fluxo operacional em excedente de caixa, pavimentando espaço para remunerar acionistas ou financiar novas concessões.
“Dam Reservoir Framework” e excedente de capital projetado
Para ilustrar o movimento, o estudo introduz o Dam Reservoir Framework. Na analogia, o fluxo de caixa operacional regulado é comparado à entrada de água em uma represa, enquanto o pesado programa de investimentos representa a saída. O ponto de inflexão chegará, de acordo com o BBA, quando a entrada superar consistentemente a vazão.
O banco calcula que, até 2030, a Sabesp acumulará capital excedente correspondente a mais de 30 % de seu atual valor de mercado, mesmo após concluir integralmente o plano de investimentos, ampliar a distribuição de lucros e manter política financeira conservadora. Esse montante poderia incluir mais de R$ 20 bilhões em lucros retidos, oferecendo à empresa alternativas como:
- Participação em novos leilões de concessão;
- Consolidação de operadores regionais de saneamento;
- Pagamento de dividendos extraordinários;
- Programas de recompra de ações;
- Expansão para geografias ou segmentos adjacentes.
O excesso de capital surge, segundo o relatório, como “ativo escondido” ainda não precificado integralmente pelo consenso.
Universaliza SP Fase 2 e variáveis regulatórias
O Universaliza SP Fase 2 (URAE2) desponta como primeiro teste prático dessa capacidade financeira. O programa, organizado pelo governo paulista, prevê cerca de R$ 50 bilhões em capex e opex para expandir serviços em 146 municípios. O Itaú BBA estima que a iniciativa pode acrescentar mais de 100 pontos-base à taxa interna de retorno da companhia e gerar valor adicional de até R$ 13 bilhões em seu cenário-base.
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Apesar das oportunidades, o banco chama atenção para desafios: elevada proporção de consumidores de baixa renda nas áreas alvo, maior intensidade de investimento por conexão e necessidade de modelo híbrido de tarifas e subsídios. A diferença entre a tarifa economicamente viável e o preço acessível ao usuário será compensada por repasses trimestrais, mecanismo que exigirá supervisão regulatória consistente.
Além do URAE2, dois pontos regulatórios concentram monitoramento:
- Reforma tributária: a forma como a Arsesp refletirá créditos de IBS/CBS na RAB e nas tarifas pode resultar em impacto neutro ou levemente positivo, se corretamente incorporado. Caso contrário, haveria risco de destruição de valor.
- Substituição do modelo VOC pelo DRC: até 90 % do capex futuro ficaria sujeito a custos de referência de mercado. Cerca de R$ 49 bilhões dos investimentos planejados até 2029 permanecerão sob as regras atuais, atenuando o risco durante a transição.
Projeções de lucros, dividendos e RAB
O Itaú BBA projeta payout escalonado: 50 % em 2026-2027, 75 % em 2028-2029 e 100 % a partir de 2030. Nesse ritmo, o dividend yield saltaria de 2,5 % em 2025 para 7,8 % em 2029, mais que triplicando. Já a RAB líquida deve avançar de R$ 108,4 bilhões em 2026 para R$ 192,8 bilhões em 2030, sustentada pela execução do plano de universalização.
Quanto ao fluxo de caixa livre para o acionista, a estimativa é de R$ 14,3 bilhões ao final de 2030, período em que a curva de investimentos deve arrefecer, liberando recursos para remuneração ou novos projetos.
Conclusão técnica
As estimativas do Itaú BBA indicam que a Sabesp está prestes a encerrar um ciclo de forte dispêndio e iniciar fase de acúmulo expressivo de caixa. A combinação de capital excedente, disciplina regulatória e oportunidades de expansão pode reposicionar a companhia de utility focada em universalização para agente consolidador do setor de saneamento. O próximo marco será o leilão do Universaliza SP Fase 2, previsto para o segundo semestre de 2026, que testará a capacidade da empresa de converter liquidez futura em geração adicional de valor sem comprometer retornos ajustados ao risco.



