Durante conferência online realizada em 2 de junho de 2026, o gestor brasileiro Luis Stuhlberger afirmou que o fator mais ameaçador para os mercados globais é a crescente dívida pública, e não a inflação ou conflitos geopolíticos, apontando que o volume de déficits pode manter juros elevados por um período prolongado.
Endividamento soberano atinge níveis históricos e pressiona prazos longos
A fala de Stuhlberger ocorre em meio a um cenário no qual Estados Unidos, União Europeia e várias economias emergentes exibem dívidas superiores a 100 % do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo o gestor, a trajetória ascendente das obrigações governamentais força investidores a exigir prêmios maiores para títulos de longo prazo, retardando qualquer ciclo de flexibilização monetária mais agressivo.
Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que o estoque de dívida global superou US$ 97 trilhões em 2025, salto de +14 % em relação ao pré-pandemia. Para Stuhlberger, mesmo com o recuo da inflação em diversas jurisdições, a combinação de déficits primários crônicos e agendas de estímulo fiscal pós-crise sanitária impede a convergência das curvas de juros para patamares mais baixos.
O gestor acrescenta que a sustentação de taxas em níveis elevados reduz a margem de manobra de governos altamente alavancados, criando um ciclo em que o próprio serviço da dívida se torna componente relevante do gasto total.
Brasil: despesas acima de 38 % do PIB ampliam o desafio fiscal
No caso brasileiro, Stuhlberger descreve um quadro de “problema fiscal gravíssimo”. As despesas primárias estão em torno de 38 % do PIB, praticamente empatadas com a receita. De acordo com o gestor, para estabilizar a relação dívida/PIB, seria necessário adicionar cerca de R$ 40 bilhões por ano em receitas ou cortes de despesas, valor que hoje não encontra fonte permanente.
O Tesouro Nacional estima que a razão dívida bruta/PIB pode alcançar 86,1 % até 2028 se não houver superávits consistentes. A contínua expansão dos gastos obrigatórios, somada a pressões para ampliar investimentos sociais no período pré-eleitoral, agrava a percepção de risco, elevando o rendimento de títulos prefixados e indexados à inflação.
Stuhlberger relaciona o nível da taxa Selic – atualmente em 11,25 % ao ano – ao temor de trajetória insustentável das contas públicas. O gestor sustenta que, sem âncora fiscal crível, o custo de capital doméstico permanecerá acima do desejável, afetando projeções de crescimento de longo prazo.
Fundo Verde privilegia CDI e evita operações alavancadas em juros e câmbio
Questionado sobre a estratégia do Fundo Verde, Stuhlberger afirmou que a maior parte da carteira continua referenciada ao CDI. A alocação busca preservar liquidez e limitar exposição a oscilações acentuadas, evitando o que o gestor chama de “play alavancado” em taxas e moedas.
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Em âmbito pessoal, o executivo mantém aproximadamente 70 % do patrimônio em ativos internacionais e 30 % no Brasil, estrutura que, segundo ele, mitiga o impacto de choques locais de mercado. A decisão reforça o diagnóstico de que o risco fiscal brasileiro permanece elevado e exige diversificação geográfica.
Geopolítica: possibilidade de trégua no Oriente Médio até a Copa de 2026
Embora classifique o conflito no Oriente Médio como fator de curta duração sobre preços de commodities energéticas, Stuhlberger projeta chance de trégua ao menos até a abertura da Copa do Mundo 2026, em 11 de junho. O gestor avalia que a popularidade do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode influenciar a condução diplomática do episódio, com foco em minimizar volatilidade política antes das midterms de novembro.
Apesar dos choques sobre petróleo e metais industriais, Stuhlberger argumenta que salários e aluguéis continuam controlados, enquanto países asiáticos seguem exportando deflação. Dessa forma, o impacto inflacionário da guerra teria sido concentrado em setores específicos, sem alterar o panorama global de forma estrutural.
Conclusão Técnica
A análise do gestor da Verde Asset Management converge para o diagnóstico de que a dívida pública crescente constitui a variável crítica para os mercados globais nos próximos anos. A manutenção de gastos elevados pressiona curvas de juros e limita o espaço para cortes de taxas, tanto em economias avançadas quanto emergentes. No Brasil, a necessidade de R$ 40 bilhões anuais adicionais para estabilizar a trajetória fiscal reforça a dependência de reformas ou aumento de receita estrutural.
Os agentes de mercado acompanham, portanto, três vetores principais: i) capacidade de governos reduzirem déficits primários, ii) resposta das curvas de juros diante de leilões de títulos soberanos e iii) eventuais ajustes em âncoras fiscais. Qualquer avanço consistente nesses pontos poderá aliviar prêmios de risco; em caso contrário, a tendência é de manutenção de taxas elevadas e maior busca por estratégias de diversificação internacional, como apontado por Stuhlberger.




