Tempestade perfeita: Fitch alerta para pressão inédita sobre o crédito do agronegócio latino com El Niño e alta dos fertilizantes

Fitch Ratings projeta deterioração acelerada do risco de crédito no agronegócio latino-americano nos próximos trimestres, combinando encarecimento de fertilizantes provocado pelo conflito no Irã com a probabilidade crescente de um novo ciclo de El Niño, fenômeno climático que pode reduzir produtividade e ampliar custos logísticos já inflacionados.

Custos de insumos atingem até 70 % da estrutura e pressionam margens

De acordo com Fitch Ratings, fertilizantes e diesel representam entre 50 % e 70 % do dispêndio total de produção agrícola. A escalada de preços desses insumos, detonada pelo aperto de oferta vinculado às tensões no Irã, expõe produtores a uma compressão significativa de margens. A agência destaca que, embora parte dos agricultores tenha fixado preços no primeiro semestre, a cobertura perde eficácia a partir do segundo semestre de 2026, quando novos contratos entrarão em vigor com cotações mais altas.

O risco não é apenas financeiro. A escassez física pode levar produtores a reduzir a dosagem de nutrientes, diminuindo a produtividade durante a safra 2026/2027. Paralelamente, custos de transporte subiram até 15 % em determinadas rotas, amplificando a pressão no fluxo de caixa de toda a cadeia agroindustrial.

El Niño introduz assimetrias regionais e intensifica volatilidade climática

A probabilidade de ocorrência de El Niño adiciona um vetor climático que, segundo a agência, se manifesta de maneira desigual na América Latina. No Brasil, projeções apontam para temperaturas elevadas e seca no Centro-Oeste, enquanto o Sul pode registrar chuvas acima da média, com risco de inundações. Em Peru e Chile, excesso de precipitação ameaça pomares e hortaliças; já na América Central, o quadro tende a ser mais seco.

Para a Colômbia, o aquecimento pode beneficiar culturas de cana-de-açúcar e palma, mas comprometer a produção de café arábica, uma de suas principais commodities de exportação. A combinação de eventos meteorológicos extremos com custos maiores eleva a volatilidade de receita e, por consequência, o risco de crédito.

Monitoramento corporativo: companhias sob pressão e possíveis beneficiadas

No universo de empresas avaliadas, a Amaggi apresenta o maior grau de exposição adversa. A agência colocou o rating da companhia em Observação Negativa (RWN) após a aquisição de 40 % da FS Bioenergia, operação que reduziu a folga financeira justamente quando a região do Mato Grosso pode enfrentar impacto climático relevante. O portfólio de grãos e oleaginosas da companhia está diretamente sujeito a custos de insumos e a oscilações de produtividade.

A própria FS Bioenergia entra no radar: o milho representa cerca de 65 % do custo de produção da empresa. Assim, uma disparada na cotação do grão pode erodir margens, apesar de o risco de abastecimento ser considerado limitado pela capacidade regional excedente.

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No sentido oposto, a Zilor é apontada como operação mais resiliente. A companhia mantém baixa alavancagem e contratos de fornecimento de cana com cláusulas que vinculam parte dos custos ao preço final de açúcar e etanol, criando um colchão natural contra choques de preço. Além disso, empresas integradas à produção de biocombustíveis podem capturar ganhos, caso a cotação global de energia permaneça elevada.

Crédito setorial pode se deteriorar no biênio 2026-2027

A avaliação de Fitch Ratings indica que a intensidade e a duração tanto das restrições no mercado de fertilizantes quanto dos efeitos climáticos de El Niño serão determinantes para o comportamento dos indicadores de crédito até 2027. A agência estima que um choque simultâneo e prolongado possa elevar a inadimplência, desencadear pedidos de reestruturação e exigir postura mais seletiva dos financiadores.

Também há potencial redistribuição de capital: setores com maior correlação positiva aos preços de energia, como etanol, tendem a atrair investimentos, enquanto cadeias dependentes de açúcar ou grãos sem proteções contratuais podem enfrentar condições de financiamento mais restritivas.

Conclusão Técnica

O cenário traçado por Fitch Ratings combina choques de custo, restrições logísticas e volatilidade climática, formando o que a agência define como “tempestade perfeita” para o agronegócio latino. A materialização simultânea desses vetores aumenta a probabilidade de revisão negativa de ratings, principalmente entre empresas fortemente alavancadas ou expostas a regiões de alto risco climático. Até que haja clareza sobre a duração do conflito no Irã e sobre a intensidade de El Niño, a expectativa é de elevação contínua do custo do crédito e de maior exigência de garantias por parte de investidores e instituições financeiras.