Taxas do Tesouro IPCA+ acima de 8% ao ano voltaram a atrair investidores, mas a gestora Legacy Capital sustenta que o patamar esconde riscos macroeconômicos e representa custo de oportunidade elevado.
Taxas recordes refletem deterioração das expectativas econômicas
O título Tesouro IPCA+ 2032 foi negociado nesta terça-feira, 16 de junho de 2026, a IPCA + 8,11% ao ano, replicando o pico de 8,36% registrado na semana anterior. A remuneração real, capaz de dobrar o capital em seis anos se mantida, reacendeu a busca por renda fixa atrelada à inflação. Entretanto, o prêmio elevado está diretamente associado a um cenário de maior aversão a risco no Brasil.
Entre os vetores de pressão sobre os juros, analistas citam:
- Persistência inflacionária acima do centro da meta;
- Aproximação das eleições gerais e incerteza sobre a continuidade de políticas fiscais;
- Tensões geopolíticas e novas barreiras tarifárias dos Estados Unidos;
- Dúvidas sobre o ritmo de corte da Selic após sucessivos comunicados cautelosos do Banco Central.
Esses fatores elevaram o term premium exigido pelo mercado para os papéis federais de longo prazo, impulsionando juros reais a níveis vistos anteriormente apenas em setembro e outubro de 2025. De acordo com cálculos da curva futura, cada 0,10 ponto percentual adicional de juro real reduz o preço unitário do Tesouro IPCA+ em aproximadamente 0,90%, reforçando a volatilidade do papel.
Visão da Legacy Capital: risco de carregar NTN-B em ambiente de Selic elevada
Com R$ 16 bilhões sob gestão, a Legacy Capital mantém exposição mínima a títulos indexados ao IPCA. Durante evento promovido pela Inter Asset, o sócio-fundador Gustavo Pessoa qualificou o momento como “péssimo para as NTN-Bs”. Segundo o executivo, a taxa de 8% ao ano parece atraente em termos absolutos, mas perde competividade quando comparada ao juro real de mercado, hoje estimado em 9% ao ano considerando uma Selic de 14% e inflação projetada de 5%.
Pessoa argumenta que, se a taxa básica permanecer elevada por mais tempo, a rentabilidade do Tesouro IPCA+ tende a ficar abaixo do CDI, índice amplamente usado como referência de curto prazo. Esse diferencial negativo configuraria custo de oportunidade significativo para investidores institucionais e pessoas físicas.
Na prática, a Legacy direciona 80% do risco de seus portfólios para ativos no exterior, limitando o Brasil a operações táticas em renda variável (long & short) e em arbitragem cambial. A alocação defensiva busca mitigar impactos de:
Imagem: Internet
- Trajetória fiscal incerta após sucessivos déficits primários;
- Pressões salariais decorrentes do fim de regimes de trabalho especiais;
- Probabilidade de estagnação do ciclo de flexibilização monetária já na próxima reunião do Copom.
Copom no radar e implicações para o investidor de varejo
O Comitê de Política Monetária divulga decisão nesta quarta-feira, 17 de junho, e o consenso aponta corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic a 14,25% ao ano. Mesmo com a redução, a expectativa da Legacy é de manutenção de juros altos até que a inflação converja para 3%. Caso o alvo não seja alcançado, novos ajustes podem ser adiados, sustentando estruturas de renda fixa pós-fixadas como mais vantajosas frente ao Tesouro IPCA+.
No cenário descrito por Gustavo Pessoa, o investidor que travar hoje IPCA + 8% corre o risco de observar, em poucos meses, CDI superiores ao rendimento real contratado, pois o spread real da NTN-B não cobriria a taxa carregada pelos fundos DI. Além disso, a marcação a mercado pode gerar perdas em caso de nova abertura de curva.
Consequentemente, a Legacy recomenda evitar prazos longos e priorizar liquidez, sobretudo enquanto:
- A pressão sobre commodities alimentar a inflação corrente;
- O teto de gastos permanecer flexível;
- As expectativas de prêmio de risco soberano continuarem ascendentes.
Conclusão técnica
O retorno real de 8% ao ano oferecido pelo Tesouro IPCA+ resulta de uma conjuntura de risco macroeconômico elevado. Embora o percentual impressione, a comparação com o juro real implícito de mercado e a possível estagnação do ciclo de afrouxamento monetário reduzem a atratividade do título. A estratégia da Legacy Capital, de alocar majoritariamente fora do Brasil e atuar de forma tática no mercado doméstico, reflete leitura de que juros elevados por período prolongado podem continuar pressionando a precificação das NTN-Bs. Investidores devem monitorar as próximas decisões do Copom e a evolução das projeções de inflação antes de consolidar posições de longo prazo em títulos indexados ao IPCA.




