BTG Pactual revisou suas estimativas macroeconômicas e passou a prever o dólar em R$ 4,90 no fim de 2026, Selic terminal de 13 % ao ano e superávit comercial de US$ 90 bi, num ambiente global de petróleo acima de US$ 100, conflito no Oriente Médio e juros em reavaliação pelas principais autoridades monetárias.
Cenário externo pressiona, mas mercado de commodities favorece o real
Há três meses vigora um conflito no Oriente Médio que mantém o barril de Brent acima de US$ 100. O choque eleva custos de energia globalmente e obriga bancos centrais a recalibrar estratégias de aperto ou afrouxamento monetário. O Brasil, entretanto, exibiu relativa resiliência devido ao perfil de exportador líquido de petróleo e fertilizantes.
De acordo com BTG Pactual, o país é o único grande emergente com saldo positivo somado nesses dois segmentos. Entre o início da crise e o fechamento do relatório, o real valorizou 4,1 % frente ao dólar, enquanto rúpia indiana, peso chileno e lira turca recuaram. A produção doméstica atingiu 4,2 mi bpd em março de 2026, recorde histórico, reforçando a entrada de divisas e sustentando a nova projeção cambial.
Câmbio, balança comercial e trajetória fiscal sob nova lente
A estimativa anterior de R$ 5,20 para o dólar ao final de 2026 foi reduzida para R$ 4,90, reflexo direto do maior fluxo cambial proveniente do setor de óleo e gás. O superávit comercial projetado para 2026 subiu de US$ 68 bi para US$ 90 bi, consolidando colchão externo capaz de atenuar choques de confiança.
Embora valorizado, o câmbio mais fraco abre espaço para menor repasse de preços importados, mas o relatório alerta que combustíveis internos ainda estão defasados em 45 % ante a paridade internacional. Caso a estatal de refino normalize preços, a recomposição poderá neutralizar parte do ganho cambial para o consumidor.
Do lado fiscal, estímulos governamentais estimados em R$ 140 bi (isenção de IR para renda até R$ 5 mil, expansão do crédito consignado, habitacional e programas setoriais) sustentam a demanda, mas ampliam a assimetria de riscos inflacionários mapeada pelo banco.
Política monetária: cortes graduais em ambiente inflacionário desafiador
Após ter elevado a Selic a 15 % no ciclo anterior, o Banco Central iniciou afrouxamento e posicionou a taxa em 14,50 %. O Copom deve manter reduções de 0,25 p.p. por reunião, levando a Selic terminal a 13 %, segundo a nova curva do BTG Pactual. A função de reação, porém, tornou-se menos previsível, pois o núcleo de preços segue pressionado.
Imagem: rádios populares e ganhou prêmio Po
A projeção para o IPCA de 2026 foi ajustada de 4,7 % para 4,9 %, acima da meta de 3 %. Para 2027, a taxa esperada é de 4,2 %. Entre os vetores de alta destacam-se:
- Reajuste potencial de gasolina e diesel, ainda defasados em 45 %.
- Efeitos indiretos sobre fretes e cadeia de alimentos.
- Serviços resilientes, impulsionados por mercado de trabalho aquecido.
- Possível evento El Niño no segundo semestre, com impacto adicional sobre alimentos.
Se a inflação superar o cenário base, a Selic pode encerrar acima do patamar previsto, adiando o alívio efetivo para linhas de cartão de crédito, cheque especial e financiamento ao consumo. Dados de março já indicam retração nas concessões de crédito e aceleração da inadimplência.
Atividade econômica e mercado de trabalho sustentam crescimento modesto
Mesmo sob juros reais elevados, o Produto Interno Bruto teve recomposição no primeiro trimestre, levando o BTG a revisar o avanço esperado de 1,7 % para 1,9 % em 2026, após expansão de 2,3 % em 2025. A taxa de desemprego atingiu 5,35 % em fevereiro, a menor da série histórica, e os salários reais mantêm trajetória ascendente.
A combinação de emprego forte e transferências fiscais sustenta o consumo, mas também reforça a pressão de demanda sobre preços administrados e serviços. O banco reforça que o balanço de riscos inflacionários está “assimétrico”, ou seja, há maior probabilidade de surpresas para cima do que para baixo, principalmente se o petróleo permanecer em patamar elevado por período prolongado.
Conclusão técnica
O ajuste do BTG Pactual revela cenário em que a forte conta de commodities confere suporte ao real e ao saldo externo, permitindo câmbio projetado a R$ 4,90 no fim de 2026. Entretanto, a combinação de combustíveis defasados, serviços resistentes e riscos climáticos mantém a inflação acima da meta, limitando a velocidade de cortes da Selic. A taxa básica deve convergir para 13 %, salvo deterioração adicional dos preços. Para consumidores e empresas, o alívio virá em camadas: dólar mais fraco reduz custos de importados, mas juros permanecerão elevados e pressões de combustíveis e alimentos seguirão monitoradas. Próximas decisões do Copom, evolução do conflito no Oriente Médio e eventual reajuste de combustíveis serão os vetores a observar no horizonte de curto a médio prazo.




