BTG Pactual projeta efeito dominó de novos IPOs após oferta da Compass na B3

Uma única oferta inicial de ações – a emissão de R$ 3,2 bilhões da Compass na B3 – foi considerada pelo BTG Pactual o gatilho para uma possível sequência de IPOs no mercado brasileiro nos próximos trimestres, segundo o diretor financeiro Renato Hermann Cohn.

Primeiro IPO em cinco anos reabre mercado

O lançamento da Compass, realizado em maio de 2026, encerrou um intervalo de quase cinco anos sem aberturas de capital significativas no país. A operação contou com o BTG Pactual como coordenador líder e atraiu demanda robusta de investidores institucionais, apesar de um contexto de juros elevados e volatilidade externa.

Para o banco, a retomada sinaliza um ponto de inflexão. Cohn destacou que “quando uma vem, puxa outras”, ilustrando a expectativa de que o êxito da Compass reduza incertezas para empresas que aguardavam condições favoráveis. Mais de uma dezena de companhias, segundo o executivo, já concluiu processos preparatórios de listagem e monitora o timing para protocolar ofertas.

O efeito psicológico no mercado de capitais costuma ser relevante: uma transação bem-sucedida reancora as métricas de avaliação, melhora a percepção de liquidez e incentiva bancos e investidores a apoiarem novos projetos de captação.

Expectativas do BTG Pactual para a próxima safra de ofertas

A projeção do BTG Pactual é de que outros IPOs ocorram ao longo de 2026, ainda que a velocidade dependa das condições macroeconômicas e da reação dos investidores internacionais. O banco identifica três vetores de suporte ao calendário:

  • Pipeline pronto: companhias de setores diversos – energia, consumo recorrente e serviços financeiros – já concluíram auditorias, assembleias de acionistas e registros preliminares.
  • Apetite resiliente: apesar da instabilidade observada entre abril e maio, o fluxo estrangeiro segue ativo em emissões de equity quando o prêmio de risco é julgado adequado.
  • Necessidade de capital: grupos empresariais buscam reforçar balanços, financiar expansão orgânica ou reduzir endividamento, optando pelo mercado de ações diante do custo das dívidas indexadas à Selic.

Cohn pondera, entretanto, que cada empresa deverá avaliar “momento ideal” considerando precificação, visibilidade de resultados trimestrais e estabilidade das curvas de juros. O executivo acrescentou que a janela agora aberta “não é um fato isolado, mas o início de um ciclo”, desde que não ocorram choques externos de grande magnitude.

Ambiente de mercado: juros, fluxo estrangeiro e dívidas corporativas

A reabertura dos IPOs contrasta com a recente desaceleração do mercado de Debt Capital Markets (DCM). Em março e abril, o volume de emissões de debêntures e notas comerciais recuou, pressionado por spreads mais altos. Para o BTG Pactual, o arrefecimento foi pontual e ligado ao “timing de preço”, não a uma deterioração estrutural.

No cenário macro, três elementos concentram a atenção dos coordenadores de ofertas:

  1. Taxa Selic: a perspectiva de cortes mais lentos prolonga o custo de oportunidade para investidores de renda variável, mas, ao mesmo tempo, torna o capital de terceiros mais oneroso para as empresas, favorecendo emissões de ações.
  2. Tensões geopolíticas: episódios no Oriente Médio elevaram a volatilidade global, porém o Brasil mantém avaliação relativamente positiva por não estar exposto a conflitos diretos.
  3. Fluxo cambial: oscilações no ingresso de dólares afetam a força compradora de estrangeiros, segmento responsável por parcela expressiva das alocações em IPOs locais.

Mesmo com esses condicionantes, o banco avalia que há espaço para “pacotes de ofertas sequenciais” caso a expectativa de queda gradual da inflação se confirme, permitindo ao Banco Central retomar o ciclo de afrouxamento monetário.

Estratégia do BTG além da janela de capitais

No 1T26, o BTG Pactual apresentou lucro recorde e ROE de 26,6%, resultado atribuído a diversificação de receitas e avanço no segmento de crédito corporativo. O CFO observa que o banco trabalhou para não depender exclusivamente de momentos favoráveis no mercado de ações.

Entre as iniciativas estratégicas, destacam-se:

  • Consumer Finance: após a consolidação total do Banco Pan, a vertical de varejo passou a representar 11% das receitas do grupo, com meta de atingir 15%–20% em até cinco anos.
  • Crédito com garantia: cerca de 90% da carteira de varejo está lastreada em financiamentos de veículos e crédito consignado, reduzindo inadimplência em ambiente de taxas altas.
  • Alocação tática em spread: retração do DCM elevou spreads corporativos, criando oportunidades para o banco originar operações diretas de crédito a empresas de maior qualidade.

Essa postura, segundo Cohn, posiciona o BTG Pactual para capturar receitas tanto em equity quanto em debt, mitigando oscilações de curto prazo.

Conclusão Técnica

O sucesso da oferta da Compass restabeleceu parâmetros de confiança e serviu como marco para reativar o mercado de IPOs no Brasil. Dados relatados pelo BTG Pactual indicam que ao menos dez empresas já dispõem de documentação pronta para listar suas ações, e a combinação de necessidade de capital com valuation atrativo pode acelerar esse fluxo.

No curto prazo, a continuidade das ofertas dependerá de três fatores objetivos: trajetória da Selic, estabilidade do fluxo estrangeiro e ausência de choques geopolíticos adicionais. Caso esses elementos se mantenham em níveis administráveis, o mercado brasileiro tende a testemunhar uma sequência de emissões ainda em 2026, consolidando a reabertura da janela de capitais iniciada pela Compass.