Natura registrou prejuízo líquido de R$ 445 milhões no primeiro trimestre de 2026 (1T26), salto de 787,6% ante as perdas apuradas um ano antes, refletindo custos extraordinários da reorganização operacional, queda de receita e cenário macroeconômico adverso.
Desempenho financeiro: retração de receita e colapso da rentabilidade
A fabricante de cosméticos encerrou o trimestre com receita líquida de R$ 4,75 bilhões, retração de 7,7% na comparação anual. No Brasil, a diminuição foi de 5,5%, puxada por recuos de 3% na marca Natura e de 13,8% na Avon. O resultado operacional, medido pelo Ebitda recorrente, totalizou R$ 346 milhões, contra R$ 781 milhões no 1T25 — baixa de 55,7%. A margem Ebitda doméstica cedeu 8,6 p.p., passando de 22,4% para 13,8%.
Os números frustraram expectativas do mercado. Dados da LSEG indicavam projeção de receita em R$ 4,3 bilhões; mesmo superando essa estimativa, a companhia não conseguiu conter a deterioração da lucratividade. O fluxo de caixa livre ficou negativo em R$ 315 milhões, refletindo maiores desembolsos com rescisões e manutenção do capital de giro.
Fatores críticos: reorganização, custos extraordinários e ambiente macro
O plano de transformação estrutural, iniciado em 2025, implicou a dispensa de 25% da força de trabalho, gerando despesas extraordinárias de R$ 221 milhões no trimestre — predominantemente verbas rescisórias. Paralelamente, o fechamento da fábrica de Interlagos e a reforma de pontos de venda reduziram a produtividade de curto prazo.
No front externo, a hiperinflação e a forte desvalorização cambial na Argentina pressionaram as margens na América Latina, que passaram de 7,5% para -1,5%. Já no mercado doméstico, o elevado endividamento das famílias restringiu o consumo, impactando principalmente as consultoras de menor volume, com destaque para a região Nordeste.
A linha Avon Iconics, relançada em março, ainda não contribuiu de forma material. A diretoria projeta introduções sucessivas de produtos a cada campanha, buscando revitalizar a marca e capturar sinergias de sortimento.
Estratégia comercial e expansão: lojas, canais e posicionamento
Embora as vendas em lojas estabelecidas tenham crescido apenas 0,6%, a empresa inaugurou 72 novas unidades nos últimos doze meses, totalizando 1.090 pontos. O executivo-chefe João Paulo Ferreira reafirmou a intenção de “acelerar a abertura” de formatos mais produtivos, após a conclusão das reformas de franquias.
No ecossistema de venda direta, a rede de consultoras ficou menos ativa. A companhia direciona esforços para programas de engajamento, digitalização de pedidos e integração entre e-commerce e consultoria física. Paralelamente, estratégias de precificação buscam compensar a perda de volumes com mix de maior valor agregado, foco em perfumaria premium e categorias de skincare.
Imagem: Internet
Analistas do BTG Pactual classificam o período como “fase de transição”, destacando a limpeza do balanço após a venda da operação internacional da Avon, mas alertam para a necessidade de execução consistente dos vetores de crescimento e recuperação de margem.
Perspectivas: captura de sinergias e cronograma de virada
Segundo a diretora financeira Sílvia Vilas Boas, cerca de 75% dos desligamentos já foram concluídos, o que deve reduzir drasticamente os gastos não recorrentes a partir do segundo trimestre. A companhia espera materializar benefícios de produtividade, simplificação logística e centralização de compras ao longo de 2026.
Em projeções internas, a liberação de caixa com a redução de despesas trabalhistas e o encerramento de unidades fabris redundantes poderá elevar a margem Ebitda em 1,5 a 2,0 p.p. ainda em 2026. Entretanto, fatores macroeconômicos como renda disponível, inflação de serviços e volatilidade cambial permanecem como variáveis de risco.
Instituições financeiras, entre elas o JP Morgan, mantêm recomendação de compra, sustentando a tese de que a ação já precifica os desafios de curto prazo e oferece potencial de valorização diante da normalização das margens. O mercado, contudo, aguarda evidências concretas de tração nas vendas da marca Natura e efetividade do reposicionamento da Avon.
Conclusão técnica
O primeiro trimestre de 2026 evidenciou o impacto imediato dos custos de reestruturação e da contração de receita da Natura. A companhia enfrenta simultaneamente pressões internas — desligamentos, fechamento de plantas e ajustes de portfólio — e externas, como a fragilidade do consumo no Brasil e a crise argentina. A administração projeta início da captura de sinergias no 2T26, mas a recuperação da rentabilidade dependerá da retomada de volumes, estabilização macroeconômica na região e execução disciplinada do plano comercial. A trajetória de curto prazo permanece desafiadora, enquanto o sucesso da virada estará condicionado à entrega de margens consistentes e geração de caixa positiva nos próximos trimestres.




