Uma mulher de 36 anos permanece internada em estado estável após o elevador de um condomínio no bairro Altiplano, em João Pessoa, despencar na tarde de 13 de março; o impacto provocou lesão medular grave e quadro inicial de paraplegia, enquanto seus filhos, de 3 e 5 anos, sofreram apenas ferimentos leves.
Dinâmica do acidente e condições clínicas
Relatórios preliminares do Corpo de Bombeiros Militar da Paraíba e do Samu indicam que a cabine despencou de um dos pavimentos superiores até o poço. Moradores forçaram a abertura da porta antes da chegada do resgate, retirando mãe e crianças. Segundo o Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, a vítima adulta apresentou ausência de movimentos nos membros inferiores logo após o resgate, sinalizando potencial lesão na medula espinhal.
Exames de imagem apontaram compressão vertebral severa, exigindo intervenção cirúrgica agendada para as próximas 48 h. Embora o diagnóstico inicial seja de paraplegia, a equipe médica ressalta que o prognóstico definitivo só poderá ser confirmado após o período pós-operatório e a evolução neurológica acompanhada por fisiatras e neurologistas.
As crianças receberam alta menos de 12 horas depois, com escoriações superficiais tratadas no pronto-socorro. O incidente, contudo, levou o hospital a notificar o Conselho Tutelar e a Secretaria Municipal de Saúde para acompanhamento psicológico da família.
Histórico de falhas e rotina de manutenção
Moradores do condomínio relataram que o elevador envolvido permaneceu inoperante por três meses no ano passado devido a “problemas técnicos”. A administração local ainda não apresentou comprovação de revisões periódicas nem o último relatório de inspeção exigido pela NBR NM 207, norma que estabelece critérios mínimos de segurança para elevadores elétricos de passageiros.
De acordo com especialistas em engenharia vertical, falhas recorrentes podem decorrer de: atraso na troca de cabos de tração, desgaste de freios de segurança e ausência de testes de limitador de velocidade. A legislação estadual (Lei nº 11.007/2017) determina que condomínios contratem empresa certificada pelo Inmetro para manutenção mensal e emitam o Relatório de Inspeção Anual. Caso o documento não exista ou esteja vencido, a administradora pode ser multada e ter o equipamento interditado.
Procurada, a empresa que gerencia o condomínio informou, por nota, que “colabora integralmente com as autoridades” e contratou perícia independente para avaliar “possível falha mecânica ou elétrica”. O nome da companhia responsável pela manutenção periódica não foi divulgado.
Protocolos de segurança para elevadores residenciais no Brasil
O Ministério do Trabalho, por meio da Portaria n.º 1.078/2014, recomenda checagens semestrais em cabos, painéis de comando e sistemas de frenagem. Adicionalmente, a ABNT NBR 15597 fixa que todos os elevadores instalados antes de 1999 devem passar por modernização, contemplando a instalação de travas de porta automáticas, sistemas contra queda livre e alarmes sonoros conectados a central de monitoramento 24 h.
Imagem: Reprodução
Especialistas apontam que o cumprimento dos protocolos reduz em até 80 % a probabilidade de colisão de cabina com o poço. Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, há legislações municipais que tornam obrigatória a presença de engenheiro mecânico na assinatura dos laudos; na Paraíba, tramitam projetos semelhantes desde 2022, ainda sem votação final.
Quando ocorre um acidente, a perícia do Instituto de Polícia Científica (IPC) analisa freios, contrapeso, limitadores de velocidade e registro de quadro de comando. Um parecer conclusivo costuma levar de 30 a 60 dias e orienta eventual responsabilização civil e criminal de síndicos, administradores e empresas de manutenção.
Conclusão técnica e próximos passos
O caso de João Pessoa reforça a necessidade de manutenção preventiva rigorosa e transparência na divulgação de relatórios técnicos aos condôminos. A perícia do IPC deve identificar se a queda decorreu de falha mecânica, elétrica ou negligência operacional. Paralelamente, a Polícia Civil instaurou inquérito para apurar responsabilidades, enquanto o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Paraíba acompanha os procedimentos.
Do ponto de vista médico, a paciente será submetida a estabilização vertebral e monitoramento neurológico contínuo. Somente após esse período será possível confirmar a extensão definitiva da lesão. Caso se comprove falha de manutenção, a administração condominial e a empresa responsável podem responder por danos materiais, morais e lucros cessantes, seguindo o Código Civil e o Código de Defesa do Consumidor.
Até a conclusão das investigações, o elevador permanecerá interditado, e os demais equipamentos do edifício deverão passar por inspeção extraordinária para assegurar a segurança dos moradores.



