Mar “ferve” com cardume de tainhas durante safra recorde em Santa Catarina

Um vídeo publicado em 15 de maio expôs a aproximação de dezenas de milhares de tainhas à praia de Itapirubá, na divisa entre Imbituba e Laguna, evidenciando o pico da safra 2026, que opera com a maior cota da história — 5,21 mil toneladas.

Registro visual revela escala incomum do fenômeno

As imagens divulgadas pelo influenciador Ramatis Ferreira Florêncio mostram, sob a luz do meio-dia, pelo menos dois grandes cardumes que se agrupam a poucos metros da arrebentação. O movimento sincronizado dos peixes cria a impressão de ebulição na superfície, efeito popularmente descrito como “mar fervendo”.

Especialistas do Centro de Pesquisa em Recursos Marinhos de Santa Catarina apontam que aglomerações desse porte costumam ocorrer durante o deslocamento reprodutivo da espécie Mugil liza, conhecido localmente como tainha-caneluda. A formação de mega cardumes é favorecida por correntes frias do sul e pela fase lunar, que regulam a migração em massa rumo às áreas de desova.

Embora ocorrências semelhantes tenham sido relatadas nos últimos anos, pescadores tradicionais de Laguna e Jaguaruna relataram que “há pelo menos uma década” não presenciavam cardume tão denso junto à costa. O vídeo já supera 1,2 milhão de visualizações nas principais redes, segundo levantamento da plataforma CrowdTangle.

Safra 2026 inicia com cota inédita e monitoração reforçada

A temporada de captura da tainha foi aberta oficialmente em 1.º de maio e se estende até 31 de julho. A Portaria SAP/MAPA n.º 120/2026 fixou a nova cota de 5.210 toneladas para a frota catarinense, superando em 38 % o limite anterior, estabelecido em 2025. O aumento deriva de parecer técnico do Comitê de Gestão da Pesca da Tainha, que contabilizou estoques mais robustos após três anos seguidos de recuperação populacional.

Para garantir a sustentabilidade, o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina implantou um protocolo de rastreamento por satélite em 124 embarcações da categoria “cerco/traineira”. O sistema envia sinais a cada 30 minutos, permitindo fiscalizar o volume retirado e o ponto de descarga nas colônias pesqueiras de Balneário Rincão, Jaguaruna e Imbituba.

Segundo dados preliminares da Secretaria de Aquicultura e Pesca, nas duas primeiras semanas de safra já foram desembarcadas 1.420 toneladas, índice 26 % superior ao do mesmo período em 2025. O pico de captura costuma ocorrer entre a segunda quinzena de maio e o fim de junho, quando as frentes frias se intensificam no Litoral Sul.

Impacto econômico e cultural no litoral catarinense

A tainha sustenta parte significativa da economia de municípios costeiros. Em Balneário Rincão, a atividade gerou receita bruta de R$ 46 milhões em 2025, de acordo com a Federação dos Pescadores de Santa Catarina. O ciclo produtivo envolve cerca de 8 mil trabalhadores diretos, entre mestres de barco, redeiros e classificadores de pescado.

Mar “ferve” com cardume de tainhas durante safra recorde em Santa Catarina - Imagem do artigo original

Imagem: Reprodução

No turismo, o espetáculo natural atrai visitantes para observar a “arrancada” das redes artesanais, impulsionando a ocupação hoteleira em até 70 %, conforme estimativas da Santur. Restaurantes locais também ampliam cardápios durante a temporada, ofertando pratos como a tainha recheada e a posta grelhada com acompanhamentos regionais.

Culturalmente, a pesca da tainha é celebrada em festas comunitárias, como o “Bois de Mamão” em Laguna e o “Arrastão da Solidariedade” em Jaguaruna. Esses eventos combinam distribuição de pescado a famílias de baixa renda e apresentações folclóricas, reforçando a identidade regional ligada ao mar.

Mudanças climáticas e perspectivas para o estoque futuro

Estudos do Laboratório de Oceanografia da UFSC indicam que a variabilidade climática, sobretudo a oscilação entre os fenômenos El Niño e La Niña, pode alterar a rota migratória da espécie. Em anos de águas mais quentes, parte dos cardumes tende a permanecer ao largo, dificultando a pesca costeira. No entanto, medições de abril apontaram temperatura média de 20,3 °C na plataforma continental sul-catarinense, valor propício para a aproximação observada no vídeo.

A longo prazo, o comitê científico que orienta a gestão da tainha recomenda manter padrões de captura ajustados aos indicadores de recruta juvenil. A previsão preliminar para 2027 sugere cota semelhante à atual, condicionada à continuação do monitoramento por satélite e à manutenção da malha mínima de 8 cm nas redes de emalhe anilhado.

Conclusão técnica

O registro do cardume de milhares de tainhas em Itapirubá confirma o vigor da safra 2026, amparada por cota recorde e protocolos de rastreamento inéditos. A combinação de condições oceanográficas favoráveis e gestão pesqueira baseada em dados sustenta expectativas de colheita acima da média histórica. Os próximos dois meses concentrarão o auge das capturas, enquanto órgãos ambientais avaliam, em tempo real, impactos sobre o estoque para projetar a cota de 2027.