Empresas de shopping centers listadas na B3 são apontadas pelo Citi como o segmento mais protegido dos choques geopolíticos e inflacionários de 2026, superando bancos e elétricas em resiliência e potencial de valorização.
Contexto macroeconômico: juros altos, inflação e conflito no Oriente Médio
A escalada do conflito no Irã, iniciada no primeiro trimestre de 2026, ampliou a volatilidade dos mercados globais. A pressão adicional sobre a cadeia de suprimentos elevou o índice de preços ao consumidor nos Estados Unidos para 4,8% ao ano, enquanto o Banco Central Europeu sinalizou a manutenção de juros em níveis restritivos até que a taxa volte à meta de 2%. No Brasil, a incerteza externa somou-se ao ciclo de aperto monetário doméstico, que levou a Selic a permanecer em 10,75% ao ano. Esse cenário, usualmente favorável a ações defensivas, deslocou o fluxo de capitais para setores considerados “porto seguro”.
Historicamente, bancos e companhias elétricas figuram entre as primeiras escolhas dos investidores quando o risco global aumenta. Contudo, análises recentes do Citi indicam que a dinâmica de receita dos bancos tende a ser pressionada por elevação de provisões, e o setor elétrico já apresenta valuations limitados após forte reprecificação em 2025. Essa mudança de expectativa abriu espaço para a avaliação de segmentos alternativos.
Fundamentos que sustentam a defesa dos shoppings
O relatório distribuído a clientes institucionais em 16 de maio de 2026 destaca que as administradoras de shopping centers apresentaram crescimento de vendas mesmas lojas (SSS) de 7,2% no 1T26, frente a uma inflação brasileira acumulada de 3,9% no mesmo período. O desempenho superior à inflação reforça a capacidade de repasse de preços dos lojistas e, por consequência, a expansão da receita de locação.
Além disso, o fluxo de pessoas (tráfego) retornou ao patamar de 2019, refletindo a combinação de retomada do consumo presencial e estratégia omnichannel dos varejistas. Segundo o Citi, a taxa média de vacância física dos ativos acompanhados permaneceu em 4,5%, a menor dos últimos cinco anos, fator que limita impacto operacional de uma eventual desaceleração no varejo.
O relatório também menciona a estrutura de endividamento das companhias, caracterizada por prazos longos e elevada parcela pré-fixada contratada antes do atual ciclo de alta da Selic. Essa estrutura reduz a sensibilidade das despesas financeiras a novos aumentos de juros, colaborando para a manutenção das margens.
Avaliações, revisões de preço-alvo e empresa preferida
Apesar de apontar maior proteção relativa, o Citi revisou marginalmente os preços-alvo de Allos (ALOS3), Iguatemi (IGTI11) e Multiplan (MULT3) a fim de incorporar riscos associados à inflação importada do Oriente Médio. As novas projeções, não divulgadas publicamente, ainda indicam potencial de valorização superior a 20% para o conjunto da carteira coberta.
A Multiplan manteve-se como principal escolha (“top pick”) do banco norte-americano, sustentada por:
Imagem: Internet
- Portfólio de ativos premium localizados em capitais com alta renda per capita.
- Governança corporativa considerada acima da média setorial.
- Capacidade de reciclagem de capital comprovada por desinvestimentos seletivos e reinvestimento em expansões de alto retorno.
O documento acrescenta que o Ebitda ajustado das empresas de shoppings monitoradas ficou 3% acima da estimativa do consenso no 1T26, reforçando a solidez operacional mesmo em ambiente de juros elevados.
Estratégias de reciclagem e otimização de portfólio
Movimentos recentes de venda de participações minoritárias em ativos maduros têm permitido às administradoras reduzir alavancagem e financiar expansões sem diluir acionistas. Esse processo de reciclagem de portfólio contribui para elevar a eficiência operacional ao redirecionar capital para projetos de maior retorno, como ampliações de área bruta locável e implantação de novas ancoragens.
Paralelamente, estratégias de omnicanalidade, que integram lojas físicas aos canais digitais, impulsionam a performance de lojistas e criam receitas adicionais de serviços de fulfillment e media indoor. O Citi estima que essas iniciativas podem adicionar 0,5 ponto percentual ao crescimento anual composto da receita dos shoppings até 2028.
Conclusão técnica
As evidências reunidas pelo Citi apontam que o setor de shopping centers da B3 reúne fundamentos capazes de mitigar impactos de choques externos mais intensos que os observados em segmentos tradicionais de defesa. Margens resilientes, vacância reduzida e estrutura de capital favorável sustentam a tese de proteção, enquanto a continuidade do ciclo de reciclagem de ativos e a expansão das iniciativas omnichannel oferecem vetor de crescimento adicional.
Para o investidor, o monitoramento de indicadores de fluxo de visitantes, vendas mesmas lojas e alavancagem financeira será determinante na confirmação desse comportamento defensivo ao longo de 2026. Em paralelo, a evolução do conflito no Oriente Médio e sua repercussão sobre índices de preços globais segue como principal variável de risco macroeconômico a ser acompanhada nos próximos trimestres.




