A Copasa protocolou pedido de oferta subsequente de ações que pode movimentar cerca de R$ 9 bilhões — cifra passível de superar R$ 10 bilhões com lotes extras — e, apesar do avanço decisivo rumo à privatização, os papéis CSMG3 recuaram mais de 2,5 % nesta quinta-feira (21), refletindo temores de menor concorrência pelo controle.
Da intenção à execução: cronologia da desestatização mineira
A proposta de venda do controle estadual da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) entrou em discussão pública ainda em 2023, ganhou tração no legislativo mineiro entre 2024 e 2025 e culminou, em 21 de maio de 2026, no protocolo de registro automático da oferta secundária na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A transação prevê a alienação de ações atualmente detidas pelo governo mineiro, que deixará de ser acionista controlador após a liquidação.
O movimento segue o roteiro adotado por outras estatais do setor, como a Sabesp e a Sanepar, mas com particularidades regulatórias ligadas ao contrato de programa vigente e às metas de universalização previstas pelo Marco Legal do Saneamento. Desde a sinalização de desestatização, as ações da Copasa acumulam aproximação de 18 % de alta em 2026, até o pregão anterior ao anúncio.
Estrutura da oferta: valores, lotes e potenciais envolvidos
Considerando o fechamento de 20 de maio, a preço de R$ 52,80 por ação, a venda primária pode levantar R$ 9 bilhões. Caso o sindicato de bancos coordenadores exerça a opção de lote suplementar, o montante pode ultrapassar R$ 10 bilhões. O volume representa um dos maiores follow-ons já registrados no setor de infraestrutura listado na B3.
O formato é integralmente secundário — os recursos irão para o Tesouro Estadual, contribuindo para reduzir o endividamento de Minas Gerais. Detalhes como faixa indicativa de preço, cronograma de bookbuilding e quantidade exata de ações ainda dependem da autorização final da CVM. A liquidação financeira está prevista para ocorrer antes do período de maior volatilidade política associado às eleições municipais de outubro.
Reação do mercado: receio de competição limitada derruba CSMG3
Logo após a notícia, os papéis CSMG3 figuraram entre as maiores baixas do Ibovespa. Por volta de 15h20, a queda atingia 2,56 %, com cotação em R$ 51,45. O movimento contrasta com semanas de valorização puxadas pela expectativa de prêmio de controle.
Análise do Banco Safra apontou que a possível redução no número de interessados estratégicos passou a limitar o potencial de upside imediato. Dois fatores explicam o cenário, segundo o relatório:
Imagem: Internet
- Desgaste reputacional da Sabesp (SBSP3) após incidente em gasoduto no bairro Jaguaré, em São Paulo;
- Compromissos de investimento (capex) elevados que a própria Sabesp assumiu depois de sua privatização, diminuindo fôlego para novas aquisições.
Com competição potencialmente menor, os investidores reavaliaram o prêmio de oferta inicialmente projetado para Copasa. Ainda assim, o Safra manteve recomendação neutra e preço-alvo de R$ 65 para o fim de 2026, com cenário otimista chegando a R$ 80.
Efeitos de longo prazo: ganhos operacionais e desafios regulatórios
A privatização é vista como gatilho para elevar a eficiência operacional, aprimorar governança corporativa e acelerar investimentos em expansão de redes e tratamento. O Plano Municipal de Saneamento exige cobertura de 99 % em água potável e 90 % em esgotamento sanitário até 2033. Analistas projetam que a nova estrutura de capital contribuirá para destravar recursos e atrair parcerias.
Por outro lado, o grupo comprador precisará negociar aditivos contratuais com prefeituras e atender metas socioambientais rigorosas impostas pela Agência Reguladora de Serviços de Abastecimento de Água e Esgotamento Sanitário (ARSAE-MG). Qualquer descasamento entre tarifas e investimentos poderá afetar a geração de caixa nos primeiros anos pós-desestatização.
Conclusão técnica
A formalização do follow-on coloca a Copasa na fase decisiva de sua desestatização, com potencial de captar mais de R$ 10 bilhões e transferir o controle ao setor privado ainda em 2026. A resposta inicial do mercado, porém, indica precificação mais cautelosa diante da expectativa de menor disputa pelo ativo. Os próximos marcos incluem divulgação da faixa indicativa, roadshow com investidores e definição da data de precificação. A performance das ações seguirá sensível ao nível de demanda identificado no bookbuilding e à evolução de concorrentes estratégicos no certame.




