O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) contabilizou superávit de R$ 80 bilhões entre 2023 e 2026 graças à valorização de ações e ao recebimento de dividendos, movimento que fortalece a estratégia de realocação de capital rumo a projetos ligados à transição energética, inovação e descarbonização.
Giro de portfólio impulsiona receita extraordinária
Desde que Aloizio Mercadante assumiu a presidência, em 2023, a subsidiária de participações BNDESPar promove uma rotação sistemática de ativos. O banco reduziu posições em companhias maduras — notadamente Petrobras (PETR4), Axia Energia (AXIA3) e Copel (CPLE3) — para direcionar recursos a empresas com elevado conteúdo tecnológico e alinhadas à economia de baixo carbono.
Dados citados pelo executivo indicam que, somente em maio de 2026, a BNDESPar alienou cerca de R$ 3 bilhões em ações da Petrobras e mais de R$ 500 milhões em papéis da Axia. No caso da Copel, as vendas deste ano somam R$ 1,2 bilhão, dos quais R$ 280 milhões foram realizadas neste mês. O total arrecadado reforça o caixa destinado à nova carteira, composta por setores como biocombustíveis, inteligência artificial e mobilidade elétrica híbrida.
Racional por trás das alienações
Apesar de reconhecer a valorização expressiva da Petrobras — classificada como a petroleira de melhor desempenho global e empresa de maior valor de mercado na América Latina —, Mercadante sustenta que a função de banco de fomento exige a busca constante por “novas oportunidades, projetos inovadores e de futuro”. A lógica, segundo o dirigente, é aproveitar momentos favoráveis de mercado para capturar ganhos de capital e, simultaneamente, diversificar o portfólio em segmentos que demandarão financiamento intensivo na próxima década.
A política de desinvestimento em ativos maduros, formalizada em nota pelo banco, é monitorada de forma contínua. O BNDES explica que avalia permanentemente oportunidades de entrada e saída de participações para “otimizar e diversificar o portfólio”, assegurando liquidez às iniciativas de risco maior, mas com potencial de impacto econômico e ambiental significativo.
Destinação dos recursos para a economia verde
Os R$ 80 bilhões obtidos entre dividendos e valorização patrimonial constituem fonte relevante para projetos que envolvem:
Imagem: Internet
- Transição energética: financiamento a parques eólicos, solares e iniciativas de hidrogênio verde.
- Biocombustíveis: apoio à ampliação da produção de etanol de segunda geração e ao desenvolvimento de SAF (Sustainable Aviation Fuel).
- Mobilidade de baixa emissão: linhas de crédito para veículos híbridos, elétricos e o chamado “carro voador” desenvolvido pela Embraer.
- Digitalização industrial: incentivos a projetos de inteligência artificial, internet das coisas e automação voltados à produtividade.
- Mineração de minerais críticos: suporte à cadeia de lítio, níquel e terras raras, insumos essenciais para baterias de alta capacidade.
Mercadante também sinalizou atenção especial a inovação em saúde e bioinsumos agrícolas, áreas consideradas estratégicas para a competitividade do país e para a mitigação de emissões.
Contexto macroeconômico e governança
O anúncio ocorreu durante solenidade na Academia Nacional de Medicina, evento que reuniu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A presença de autoridades reforçou o alinhamento institucional do banco com a agenda federal de crescimento sustentado e inclusão produtiva.
No plano de governança, a venda de participações é submetida a critérios de mercado e aprovada pelos conselhos competentes, preservando transparência e evitando interferências políticas na precificação dos ativos. Fontes próximas ao BNDES afirmam que, em 2023, análises internas apontavam condições desfavoráveis para alienações, motivo pelo qual o banco optou por aguardar valorização adicional antes de executar ordens de venda.
Conclusão técnica
A geração de R$ 80 bilhões em apenas três anos confirma a efetividade da estratégia de reciclagem da carteira de participações do BNDES. O reforço de caixa amplia a capacidade de financiamento a segmentos críticos para a transição energética e a transformação digital da economia brasileira. Nos próximos trimestres, a instituição tende a aprofundar a redução de posições em empresas consolidadas, mantendo a disciplina de mercado para otimizar ganhos e, simultaneamente, acelerar o apoio a projetos que demandem capital paciente e de longo prazo.




