Acionistas minoritários da Gafisa pedem AGE para destituir conselho fiscal e ampliar administração após desvalorização de 80% em 2026

Um grupo de acionistas minoritários liderado pela gestora L4 Capital protocolou, em 25 de maio de 2026, pedido formal de convocação de Assembleia Geral Extraordinária (AGE) na Gafisa (GFSA3) com o objetivo de destituir o conselho fiscal recém-eleito, ampliar o conselho de administração de três para cinco cadeiras e, segundo os proponentes, restaurar mecanismos de governança após sucessivas perdas operacionais e uma queda de quase 80 % nas ações no ano.

Estopim da mobilização e base acionária envolvida

O requerimento surgiu duas semanas depois da Assembleia Geral Ordinária (AGO) realizada em 11 de maio, quando o conselho fiscal foi eleito em rito considerado “acelerado” pelos minoritários. Os investidores, que detêm pouco mais de 8 % do capital votante, superam o piso regulatório de 3 % necessário para convocar uma AGE, conforme previsto na Lei das S.A.

De acordo com Hugo Queiroz, sócio da L4 Capital, havia tratativas de diálogo com a administração, inclusive um almoço agendado para 15 de maio. Entretanto, a escolha antecipada do conselho fiscal teria sinalizado, para o bloco de minoritários, resistência à revisão da estratégia corporativa. O episódio funcionou como gatilho para a ação coordenada que agora busca alterar a composição dos órgãos de fiscalização e decisão.

Principais pontos da proposta de governança

O texto entregue à companhia descreve três medidas centrais:

  • Destituição integral do conselho fiscal eleito em maio e convocação de nova eleição para garantir maior independência na supervisão dos atos da administração.
  • Ampliação do conselho de administração de três para cinco membros, com mandato unificado até a AGO de 2027. Dois indicados — Luciano França (ex-Even) e Carlos Suslik (CEO da L4 Capital) — representariam a visão dos minoritários.
  • Revisão estratégica da companhia, com foco em disciplina financeira, desinvestimento de ativos não geradores de caixa imediato e posicionamento comercial em praças consideradas economicamente resilientes, como o agronegócio do Centro-Oeste e o mercado de luxo litorâneo de Santa Catarina.

O conselho de administração da Gafisa tem até oito dias corridos, contados a partir do recebimento do requerimento, para se manifestar sobre a convocação da AGE, conforme determina o estatuto social.

Radiografia financeira: receita em queda, margem pressionada e alavancagem em alta

Os minoritários fundamentam o pedido de intervenção com indicadores que, segundo o grupo, evidenciam “destruição de valor” entre 2019 e 2026:

  • A receita operacional líquida recuou de aproximadamente R$ 700 milhões para R$ 500 milhões.
  • As margens brutas projetadas para avançar ao intervalo de 40 % a 45 % no segmento de alto padrão estagnaram próximas de 30 %.
  • A relação dívida líquida / patrimônio líquido saltou de 39 % para cerca de 83 %, atingindo patamares próximos de 100 % em métricas específicas acompanhadas pelo mercado.
  • Na B3, as ações GFSA3 acumulam perda de quase 80 % em 2026 e retração superior a 99 % desde a oferta pública inicial.

O histórico de resultados negativos, associado à alta alavancagem, eleva a percepção de risco da incorporadora. Para os investidores dissidentes, a fragilidade decorre menos da qualidade dos ativos — considerados “bem posicionados” em São Paulo e Rio de Janeiro — e mais de falhas na execução estratégica e na governança.

Paralelos estratégicos e possíveis consequências da AGE

A L4 Capital cita precedente na Inepar (INEP4), onde assumiu posição relevante, promoveu mudanças na gestão e direcionou esforços para reestruturação financeira. A intenção é replicar metodologia semelhante na Gafisa, reduzindo o porte operacional para lançamentos anuais entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões, além de alienar participações que não gerem liquidez de curto prazo.

Especialistas em mercado imobiliário observam que a efetivação dessas alterações pode gerar dois efeitos imediatos: (1) reorganização dos canais de reporte financeiro, trazendo maior transparência sobre fluxos de caixa, e (2) reavaliação de projetos com retorno abaixo do custo de capital, medida que tende a aliviar a pressão sobre a alavancagem.

Conclusão técnica

A resposta oficial do conselho de administração à solicitação dos minoritários deverá ser divulgada até 2 de junho de 2026, dentro do prazo estatutário. Caso a AGE seja convocada, os acionistas votarão a recomposição do conselho fiscal e a expansão do board, decisões capazes de alterar significativamente a governança da Gafisa. Enquanto isso, a companhia permanece sob acompanhamento rigoroso do mercado, que aguarda sinais concretos de reversão da tendência de queda nos resultados operacionais e no valor de mercado.