Introdução (Lead): A Polícia Federal deflagrou em 28 de maio a Operação Fluxo Oculto, nova etapa da Carbono Oculto, bloqueando R$ 204 milhões em três Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) — Zeus, Gran Capital e DB Crédito Global — suspeitos de lavar recursos oriundos de desvio de nafta petroquímica e de adulteração de combustíveis, com apoio de fintechs e custodiante comum.
Estruturas financeiras sofisticadas e o uso de fintechs
A nova fase concentrou-se em uma engrenagem que, segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo, servia como camada de blindagem para movimentar valores bilionários com aparência legal. A investigação aponta que empresas do setor de combustíveis — Petrodansk, Petroriente, Tercom, entre outras — cediam direitos creditórios aos FIDCs, permitindo a circulação de capitais suspeitos entre fintechs, como Nova Rubília Instituição de Pagamento e Pix Card, e uma rede de fundos interligados. A análise dos informes mensais enviados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) revela que parte significativa dessas carteiras era liquidada em prazos inferiores a 30 dias, com deságios inexistentes ou mínimos, característica recorrente em esquemas de lavagem.
Zeus, Gran Capital e DB Crédito Global concentram bloqueios judiciais
A decisão judicial determinou o bloqueio de R$ 85 milhões no Zeus FIDC, R$ 72 milhões no Gran Capital FIDC-NP e R$ 47 milhões no FIDC DB Crédito Global. Os dois primeiros fundos compartilham a mesma infraestrutura operacional: administração da Actual DTVM, auditoria da BGM Auditores, custódia da Trustee DTVM e estruturas concentradas em poucos cotistas. Somados, os três veículos saltaram de um patrimônio líquido agregado de R$ 33,9 milhões em 2020 para R$ 211,1 milhões em abril de 2026, crescimento que chamou a atenção dos investigadores.
Trustee DTVM: o elo reincidente nas operações da PF
A Trustee DTVM, de propriedade de Maurício Quadrado — ex-sócio de Daniel Vorcaro e ligado ao Banco Master — volta ao centro das apurações após já ter sido mencionada na fase inicial da Carbono Oculto em 2025. Na operação atual, a instituição surge como custodiante dos dois FIDCs que concentram os maiores bloqueios, repetindo o papel de zelar pelo registro e pela guarda de ativos que, na prática, estariam vinculados a créditos de origem irregular. Questionada, a empresa não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.
Imagem: Internet
Crescimento patrimonial e interligação societária
Os dados públicos indicam que, entre dezembro de 2020 e abril de 2026, o Zeus FIDC multiplicou seu patrimônio em mais de cinco vezes, chegando a um pico de R$ 112 milhões em agosto de 2025. O Gran Capital avançou de R$ 10,2 milhões para R$ 74,4 milhões no mesmo intervalo, enquanto o DB Crédito Global saiu de R$ 6,2 milhões (dez/2023) para R$ 46,9 milhões (abr/2026). Registros da CVM mostram ainda sobreposição de responsáveis técnicos, como Guilherme Mourão Vaz (Actual DTVM), Edward Bertelli Júnior (Libertas Asset) e Luis Roberto Zaratin Soares (Ello Gestora), formando uma rede de governança cruzada entre os fundos investigados.
Conclusão Técnica
Com a deflagração da Operação Fluxo Oculto, a Polícia Federal intensifica a verificação de fluxos financeiros em FIDCs e fintechs que apresentem padrões atípicos de liquidação, alta concentração de cotistas e crescimento acelerado de patrimônio. O bloqueio de R$ 204 milhões deve permanecer até a conclusão da perícia sobre a origem dos créditos e a eventual formalização de denúncia pelo Ministério Público. Paralelamente, a CVM analisa possíveis infrações administrativas, podendo culminar em suspensões de registro, multas e responsabilização de gestores, administradores, auditores e custodiante. As próximas etapas preveem: 1) cruzamento de dados bancários dos beneficiários finais; 2) avaliação de documentos contábeis das empresas cedentes; e 3) eventual cooperação internacional, caso os recursos tenham fluxos transfronteiriços. Até nova manifestação judicial, os fundos permanecem com as cotas congeladas e seguem sob monitoramento regulatório reforçado.




