Fundada em maio de 2026, a Latin America REITs Association (LAREAL) traçou como meta atrair até US$ 12 bilhões em capital estrangeiro para os fundos imobiliários brasileiros ao alinhar padrões locais aos critérios internacionais de real estate.
Institucionalização como elo perdido entre FIIs e Wall Street
Apesar de o mercado de fundos imobiliários ter multiplicado o patrimônio por sete desde 2016, alcançando R$ 236 bilhões, a base continua ancorada em aproximadamente 2,9 milhões de investidores pessoa física. A falta de institucionalização impede o avanço rumo a índices globais de referência, como o FTSE EPRA Nareit Emerging Index, onde o Brasil detém participação modesta. De acordo com projeções da LAREAL, a adoção de padrões comparáveis aos Real Estate Investment Trusts (REITs) norte-americanos poderia elevar o peso brasileiro no índice para 13,45 %, passando a um market cap estimado em US$ 25,5 bilhões.
O presidente da associação, Potyguara Camargo, identificou a lacuna enquanto liderava a mesa institucional de FIIs em uma corretora. Segundo ele, gestores globais relataram desconhecimento operacional sobre o produto, e não restrições de liquidez ou tamanho. A ausência de dados padronizados, relatórios bilíngues e métricas alinhadas a práticas internacionais limita a entrada de fundos de pensão, seguradoras e asset managers estrangeiros.
Plano de ação em três frentes: relacionamento, dados e defesa institucional
A LAREAL estrutura sua estratégia em eixos complementares:
1. Relacionamento: criação de canais formais para aproximar gestores locais de potenciais alocadores internacionais. A entidade já foi admitida na Global REIT Alliance (GRA), dividindo a mesa com organizações como NAREIT (Estados Unidos) e EPRA (Europa). Essa participação garante interlocução direta com reguladores e family offices globais.
2. Dados: desenvolvimento de uma plataforma pública que consolide relatórios de fluxo, métricas operacionais e análises comparáveis entre FIIs e REITs. Os materiais, segundo Camargo, serão disponibilizados gratuitamente, eliminando assimetrias de informação e elevando a transparência setorial.
3. Defesa de mercado: advocacia junto a órgãos reguladores para padronização contábil, governança e divulgação. O objetivo é instituir rotinas de auditoria, guidance trimestral e políticas de distribuição de resultados que permitam comparabilidade global.
O núcleo fundador reúne gestoras de porte — Alianza, Guardian, Suno, TRX, Valora e Vinci Compass — e mira 45 fundos associados até o fim do primeiro ano de operação.
Imagem: Internet
Potencial de fluxo: como chegar aos US$ 12 bilhões projetados
O cálculo de US$ 12 bilhões em ingressos decorre da simulação de aumento de participação nos índices internacionais. Assim que os FIIs brasileiros passarem a seguir métricas homogêneas — por exemplo, Funds From Operations (FFO) e Net Asset Value (NAV) reportados em dólar —, gestores passivos alocados em carteiras globais tendem a replicar o novo peso. Esse fluxo automático soma-se ao interesse ativo de hedge funds e estratégias de renda recorrente em busca de yield real acima da média nos mercados emergentes.
Além do capital, a pressão por maior liquidez deve reduzir o spread entre cotação e valor patrimonial, favorecendo tanto investidores locais quanto estrangeiros. A expectativa é que esse ciclo virtuoso reverbere em novas emissões primárias para desenvolvimento de portfólios logísticos, corporativos e de data centers, áreas nas quais REITs internacionais já operam em escala.
Próximos eventos e cronograma de integração global
No curto prazo, a LAREAL representará o setor brasileiro na REITweek, em Nova York, onde apresentará estudos de caso sobre FIIs de logística em Cajamar (SP) e de escritórios em regiões prime de São Paulo e Rio de Janeiro. Paralelamente, reuniões com agências de índice discutirão critérios de elegibilidade para inclusão de FIIs no S&P Global Property 40.
No âmbito regulatório, a associação prepara propostas de alteração na Instrução CVMM 472 (atualmente em revisão), visando incorporar exigências de disclosure trimestral em inglês e parâmetros mínimos de governança. Segundo Camargo, o diálogo inclui Banco Central e Receita Federal para simplificar o cadastro de non-resident investors.
Conclusão técnica
Ao se posicionar como ponte entre o mercado imobiliário brasileiro e os grandes hubs financeiros, a LAREAL persegue a padronização que falta para destravar o interesse institucional externo. Se as iniciativas de relacionamento, transparência de dados e defesa regulatória avançarem conforme o cronograma, o volume estimado de US$ 12 bilhões tende a materializar-se gradualmente, elevando liquidez, reduzindo discounts de cotação e ampliando a base de investidores. Os próximos marcos serão a adesão de novos fundos membros e a efetiva inclusão de ativos brasileiros em índices globais de real estate, condição fundamental para consolidar a presença do país na liga dos gigantes do setor.




