Flávio Bolsonaro afirmou nesta sexta-feira, 29, em evento partidário em Curitiba, que “em dois dias como pré-candidato fez mais do que Luiz Inácio Lula da Silva e o PT em 20 anos”, referindo-se à inclusão do PCC e do Comando Vermelho na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras dos Estados Unidos, anunciada em 28 de março.
Contexto imediato da declaração
A fala ocorreu durante o lançamento das pré-candidaturas de Sérgio Moro ao governo do Paraná, de Deltan Dallagnol e Filipe Barros ao Senado, todos filiados ao Partido Liberal (PL) ou ao Novo. Diante de correligionários, o senador relacionou a medida do Departamento de Estado norte-americano a supostos esforços seus junto a parlamentares republicanos dos EUA, embora não tenha apresentado detalhes ou documentos que sustentem tal participação.
Ao atacar o presidente da República, Flávio sugeriu que Lula “defende” ou “é ameaçado” pelas facções, citando declaração do chefe do Executivo que se disse “triste” com a decisão de Washington. O senador completou a provocação dizendo que, caso Lula esteja sob pressão criminosa, “é bom votar em Flávio Bolsonaro” em 2026, ano previsto para a próxima eleição presidencial.
Classificação do PCC e CV como organizações terroristas
O Departamento de Estado dos EUA oficializou, em 28 de março, a futura inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) em sua lista de Organizações Terroristas Estrangeiras. A determinação entra em vigor em 5 de junho de 2026, após período de trâmites administrativos.
Segundo comunicado norte-americano, as facções atuam em tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e crimes violentos transfronteiriços, justificando a equiparação a grupos classificados como terroristas. Com a medida, cidadãos ou empresas dos EUA ficam proibidos de colaborar financeiramente com os dois grupos, e eventuais ativos em território norte-americano podem ser bloqueados.
Pesquisas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública estimam que o PCC reúna cerca de 45 mil membros, enquanto o CV tenha aderentes espalhados por diversas unidades da federação. A classificação norte-americana amplia pressões por cooperação jurídica e policial entre Brasília e Washington.
Reações do Palácio do Planalto
Em agenda no Sergipe, Lula afirmou ter ficado “triste” com a iniciativa dos EUA, argumentando que “o Brasil tem plena capacidade de enfrentar seus próprios problemas internos” e que preferiria negociações multilaterais em vez de decisões unilaterais estrangeiras. O Ministério da Justiça informou, por meio de nota, que “acompanha os desdobramentos” e ressaltou programas federais de enfrentamento ao crime organizado, incluindo a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO) e operações coordenadas com a Polícia Federal.
Integrantes do Itamaraty avaliam que a tipificação norte-americana pode ter efeitos sobre cidadãos brasileiros detidos nos EUA por ligação com as facções, mas destacam que não há, até o momento, solicitação formal de cooperação adicional. Especialistas em direito internacional recordam que a designação estrangeira não altera enquadramentos penais previstos na legislação brasileira, onde terrorismo é definido pela Lei 13.260/2016.
Imagem: Youtube
Repercussão entre pré-candidatos e partidos
Sérgio Moro, ex-juiz da Operação Lava Jato, endossou o discurso de Flávio, afirmando que “o crime organizado é a principal ameaça à democracia brasileira”. Já Deltan Dallagnol declarou que “a decisão dos EUA evidencia a omissão do governo federal”. Líderes do Partido dos Trabalhadores (PT) reagiram, qualificando as falas como “irresponsáveis” e destacando que Flávio “não exerce função no Executivo capaz de intervir em política externa dos EUA”.
Analistas políticos observam que a referência às facções cria narrativa de segurança pública capaz de engajar eleitorado conservador, tradicionalmente sensível a pautas de combate ao crime. Pesquisas do Instituto Paraná, divulgadas em fevereiro, apontam que 38 % dos eleitores consideram a violência urbana o principal problema do país — percentual que sobe para 52 % entre simpatizantes do PL.
Agenda legislativa e próximos passos
No Congresso Nacional, parlamentares do PL e de siglas aliadas já protocolaram requerimentos para realizar audiências públicas sobre a designação norte-americana e discutir mudanças na Lei de Organizações Criminosas (12.850/2013). Uma das propostas em debate prevê aumento de pena para participação em facções qualificadas como terroristas por organismos internacionais.
O Ministério da Justiça informou que avalia convites para participar das audiências, mas ressalvou que “nenhuma nação terceiriza suas políticas criminais”. A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, solicitou informações detalhadas às autoridades norte-americanas para eventual compartilhamento de provas que possam subsidiar investigações em andamento no Brasil.
Conclusão Técnica
A declaração de Flávio Bolsonaro capitaliza, em âmbito doméstico, a decisão unilateral dos Estados Unidos que só produzirá efeitos legais em 2026. Embora o senador atribua protagonismo próprio na medida, não há confirmação oficial de participação brasileira no processo de classificação. No campo diplomático, o governo federal analisa implicações jurídicas e busca preservar autonomia na condução da segurança pública. No Legislativo, o tema tende a impulsionar projetos de lei voltados ao endurecimento penal contra facções, movimentação que deverá ganhar força durante o ciclo eleitoral de 2026.




